quarta-feira, 2 de julho de 2008

Obrigado Fernanda por este texto sob o signo da Cal

Perscruto algo que me faça entender o uso da palavra “cal”. Sim. Não raras vezes, encontro-a nas prosas e poemas de vários autores credenciados, como António Ramos Rosa, João Rui de Sousa, Luís Filipe Pereira. Como se não bastasse, eis o último livro de José Luís Peixoto. Na sua capa, apresenta uma fotografia de uma mão magra, envelhecida e com os seus ramos circulatórios bem marcados. Esta mão empurra, como a querer voltar ou recordar a sua passagem, um pedaço da parede de um muro branco, que deduzo ser pintado a cal. Quando digo muro, é mesmo muro. E a mesma palavra, “Cal”. Assim é o título deste seu livro em prosa. Tento entender o valor da palavra “cal”. Então, escrevo…
Os dias, estão quentes, muito quentes. O sol queima nos corpos, na areia, nas matas, nas casas. É tempo de busca na protecção. Alerta laranja, vermelho, perigo de autocombustão. É tempo de proteger as memórias do passado. Longevidade. A sua rigidez, através do símbolo do próprio tempo. Cal. É a sua cor. O branco que a reveste acaricia na calma e acalma a transparência de olhares sentidos. Sensibilidades presentes e sólidas. Na pobreza de suas casas está a grandeza da força da cor e dos gestos térreos. Gestos brancos. Rostos que esboçam sorrisos. Estátuas que sabem articular palavras, que o vento e os poetas, quando chegam, se encarregam de levar, até onde lhes é permitido alcançar.
É cal, a linguagem dos nobres humildes.
Dite Apolinário

4 comentários:

Anónimo disse...

de facto, a cal faz parte do rizoma lexical deste escritor l. filipe pereira. a autora, com mestria, dá uma interpretação do lexema da cal. A cal até ao osso. a cal dos muros. da aridez criadora: nobreza dos humildes, de facto.
victor Sá.

Anónimo disse...

A Cal: que queima. que redime. a nudez sublime de "nobres humildes".

Anónimo disse...

Surpreendida? Sim.
Agradeço? Se me permitir, agradeço o gesto de postar um texto meu e no seu blog!
Mais agradeço, os respectivos comentários.

Muito grata a todos!
Fernanda Apolinário (DiteApolinário)

Pedro Jorge disse...

surpreendente digo.
é verdade.

conseguir criar uma história a partir de uma acção normal de abrir um bolso do quotidiano e trazê-lo de forma literária às escritas, com tal cabimento que transpõe culturas concretas, como escritores e escritas.

muito bem, muito bom.

felicitações.