quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

TEXTO/Apresentação de A TELA DO MUNDO na revista UMBIGO


Um texto que explora, de maneira sinóptica, os traços recortados no meu livro A Tela do Mundo,
encontra-se na rubrica 5 sentidos da Revista Umbigo. Um eco ao nível da Imprensa que compartilho com os leitores reais e potenciais do meu livro. (se alguém estiver interessado na aquisição de A Tela do Mundo, pelo seu valor de capa, 12 euros, eximindo-me às altas comissões das livrarias e lugares de venda pode sempre dirigir-me, por meio deste meu blog ou do meu e-mail lippepereira@gmail.com , o pedido, sendo que as despesas de correio ficarão por minha conta, além de que poderei, com gosto, autografar, fazer dedicatória no livro).
luís filipe pereira

domingo, 14 de dezembro de 2008

Ontem, no espaço Memória dos Exílios, Estoril, fiz a apresentação da obra de poesia, coadjuvado pelo Professor Doutor Pena (Universidade Lusófona).
Acolhedor e afectuoso foi enternecedor e belo, muito belo, o ambiente tingido por leituras de poemas, em que as vozes se cambiaram em pontes e cingiram as Margens: li os poemas "Café no Chiado" e o poema em francês "Un Jour" deixando que me deambulasse a voz por rostos acesos de gentileza e de ávida partilha.
Lucyana estreou a polifonia das vozes lendo, do poeta Rubem Alves, os versos: "Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros. /Tenho muitos amigos e, sobretudo gosto de brincar./Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver a minha vida novamente, / eu a viveria como vivi porque estou feliz onde estou." "E gosto de andar de bicicleta", acrescentou a autora da obra.
E que feliz está a Poeta Maria Saturnino Entre Margens, pois como leu a autora, do incipt do livro "Entre margens me criei /e entre margens cresci!". A Rubem Alves, gostando de brincar, acrescentou a autora: gosto de andar de bicicleta. Leu entretanto a autora, como evocação de um espaço a que está cosida com os alinhavos do afecto. o poema "Balsa", cujo mote "Os deuses não te escutaram/os deuses já te esqueceram"cruzou a minha voz à da autora. Leu depois maria saturnino o belíssimo poema, tão rente a Moçambique e às águas do Rio Limpopo, "Cajueiro". O Prof. Pena leu, com os signos do Sul, os pássaros de Tavira, os cheiros das maresias e dos ventos, o poema "Quatro águas". O Doutorando (e editor da revista luso-portuguesa Leitor, para a qual me solicitou a publicação do meu texto de apresentação de Entre Margens) Ricardo Miguéis leuo poema "Quando" e, em castelhano, josé Domingues leu o poema "Sueño Loco" a que se segui uma generosa e enternecedora surpresa uando a arista Laura Cesana leu um poema do livro "Maga Verde" que a própria Pintora traduziu para italiano.
"Arja Molho!" foi a leitura com que no epílogo de tão belo lançamento, Maria Saturnino a todos nos brindo sentando-nos a todos à mesa das suas palavras e deixando-nos saborear os miscigenados sabores e odores deste belo livro Entre Margens.
Um lançamento que, de tão terno, acolhedor e fraternal, jamais esquecerei e que tanto me orgulha e privilegia por nele ter participado. Bem Haja querida amiga Sani, cara escritora Maria Saturnino.
Luís Filipe Pereira

domingo, 7 de dezembro de 2008

A Tela do Mundo by mgdias

A Tela do Mundo by mgdias

LANÇAMENTO DE A TELA DO MUNDO, 6 DEZEMBRO 2008, Foto de Rita Correia in Museu do Fado/sessão de autógrafos



do Poema "óleo sobre noite" de A Tela do Mundo


"entro na noite.

no insone ar do imóvel azul
(...)
no aéreo abismo dos amplos aromas(...)
(...)
nos tímbales adormecidos sobre afectuosos golpes de vinho
(...)
nas lúcidas línguas dos nomes e das nuvens
(...)
na polissemia de estrelas perfumando o horizonte
(...)
"
luís filipe pereira

6 de Dezembro de 2008: AGRADEÇO A TODOS OS QUE TORNARAM PRODIGIOSO O NASCIMENTO D'A TELA DO MUNDO


6 de dezembro de 2008. O auditório do Museu do fado encheu-se, cadeira a cadeira, espaço a espaço. de gente. tanta gente debruçada sobre a superfície vibrante da mesa em que, como vocativo, emergia livre, solta, a Tela do mundo.
Figuras vigilantes, rostos de ternura, a confundirem-se nos contornos, num caleidoscópio de afectos e de partilhas. nomeio alguns, como se fossem sílabas do nascer incompleto à beira de completar-se no folhear das páginas do sonho que esse sim acontecia como barco que floresce num "encontro dos lábios/com a paisagem dos dedos" onde audíveis já, numa proximidade de Ítaca, os acordes musicais dos Isabela's bop.
As guitarras acesas e brilhantes em redor dos nomes: Professora Doutora Adelinda Candeias (- o lançamento na Universidade de Évora está prometido): Romy e arquitecto Eduardo S. Nunes (poliândricas arquitecturas a repercutirem-se como linhas brilhantes ao arquitecto Jorge Rocha Antunes): Magistrada Fátima Valente: Pintoras Laura Cesana, Filipa Freitas do Amaral, Susana Mendes: Gisela Ramos Rosa: Doutora Maria Saturnino ( - prometida está a minha apresentação do seu livro Entre Margens no próximo sábado, no Estoril):Doutora Elisa Gaudêncio Soares:Doutora Catarina e Doutor Álvaro: Doutora Benilde Vieira Martins e mais amigos, versos oblongos na lenta superfície de mil sóis. centenas de raios de mundo a oferecerem mundos ao Mundo dest'A Tela.
Patrícia Cabrita: Elsa García: Luís Antunes: Tiago Peixoto: João Tiago Coelho: D.Iria: Victor Banza: Mané: Sandra Cecílio: Patrícia de Bastos: Ricardo: Walter: Sandra Ramos (- que mágnificos disparos, fotogramas a tecerem-se minuciosamente no fim da tarde na manhã das manhãs do nascimentpo do livro).
Em todas as direcções, os poemas deste livro a encontrarem lábios e entoações, o livro a estremecer na Tela polifónica das vozes a descobrirem nos versos uma linha de horizonte: Fernanda Apolinário: Inês Nunes: Dionísio Dinis: Cíntia Gonçalves, Inês Apolinário, das vossas bocas a sairem meus versos como cintilantes linhas de espuma.
A professora Isabel Clemente a apresentar o livro como um filho que a levasse nos braços e a das suas palavras a surgirem as águas indivisas como se o livro ficasse guardado em sua respiração.
intermezzo: homenagem a Laura Cesana: eu leio as manchas de mares musicais e a Luísa Amaro, na guitarra portuguesa, exímia, com os sons frondosos a recostarem-se nas costas da cadeira no anverso dos rostos cada vez mais rentes aos primeiro balbuciar do livro. os rostos: estátuas refloridas, molhados pela chuva de sons, mergulhando num jardim de sereia.
As imagens na tela (que Inês Apolinário recriou) - Frida Kahlo, Antonio López, Helena Almeida, rostos de António Ramos Rosa, quarto de van Gogh, João Vieira, Helena Vieira da Silva - em que as estrofes voltam a acender-se e as cores fazem um barulho de folhas e rebrilham os rostos:
Rui Cecílio: Tiago Diogo: Rita Correia (olhando detrás da objectiva outros rostos, outros planos, outras alegrias): Nixan Veiga, Ju Serra; Engenheira M. Fernanda; Doutora Sara Pereira (- anfitreã da delicadeza): Mafalda: João Marques: Maria Rosa Leonor (- já li o seu livro estreante Mulheres & Deusas): Goreti Dias; Laura Gil; Poeta Fernando Vaza, Poeta Amélia de Carvalho (- que belo o seu mais recente livro: No Princípio era o Sol) e outros, tantos outros, leitores escrevendo sobre a superfície em que A Tela do Mundo nascia.
Pai. Mãe. Manos. Princesas Soraya, Margarida, Constança, leitores em mim como os gestos morosos das mudas e lentas madrugadas afinando-me o sangue.
Foi mágico. o auditório tornou-se a indiferenciada península da cega intimidade, da que desce ao âmago do visível: do amor, da amizade, da poesia. uma experiência inolvidável da leitura, do espaço de nascer numa ocupação afectuosa, numa ilimitação que guardarei como fenda sísmica no lugar abrigado de uma luz que de irrepetível agradeço, que de irrepetível me beija e me cega.

luís filipe pereira

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A TELA DO MUNDO: NOVA DATA, NOVO LOCAL: 6 de DEZEMBRO, 17h, MUSEU DO FADO


A Tela do Mundo
Por motivos que me são totalmente alheios e, como noticiado pelos órgãos de comunicação social, ocorreu o encerramento da que era propalada como a maior livraria do país,a livraria Byblos, situação que me apanhou totalmente de surpresa, obrigando-me a alterar o dia e o local do lançamento do meu livro A Tela do Mundo para o Museu do Fado (Largo do Chafariz de Dentro, n.º1, Bairro de Alfama, Lisboa), dia 6 de Dezembro, às 17 horas.
Com um renovado entusiasmo e desejo que venham partilhar o nascimento da obra A Tela do Mundo, reitero o quanto me honra contar com a vossa presença.
Caros amigos, caros intertextuantes, agradecendo a todos as manifestações de amizade, de interesse à volta do meu livro A Tela do Mundo (postadas no item abaixo), venho, com renovado prazer e reverdecente expectativa, convidá-los a todos,
convocar-vos para o lançamento da minh'A Tela do Mundo, quase ferida de morte por quem não honra compromissos, pois fui tão apanhado pela "bomba" do fecho da Livraria como todos vós e cujos estilhaços me perfuraram por dentro: o ânimo, a vontade.
Porém gestos generosos como os vossos, mensagens de múltiplos quadrantes de apoio e incentivo, respeito e convicção pela qualidade do meu livro, pelas pessoas que tanto se têm empenhado em planear e sonhar o seu evento (a produção de imagens prodigiosa de Inês Apolinário, o empenho da criadora de jóias contemporâneas Inês Nunes, da Mónica Cunha, da Cíntia Gonçalves, a colaboração de vários artistas plásticos , da Direcção da Cultura da Câmara M. de Lisboa, na pessoa, minha amiga, de Drª Laurentina Alves P, da Directora do Museu do Fado, Drª Sara Pereira, da Professora Doutora, minha amiga de e para sempre Profª Isabel Clemente (autora do posfácio da obra) e que fará a apresentação do meu livro, de tantos outros (obrigado Fernanda Apolinário, Dionísio Dinis, Goreti Dias, Doutora judite Fidalgo, Mel de Carvalho, Laura Gil, e todos, e tantos outros),
porém, dizia-vos, toda essa dinãmica ditou, com a força de um kantiano imperativo categórico, que o meu livro será lançado, num espaço lindíssimo, num evento que será, estou certo, maravilhoso: com um prelúdio musical de três guitarristas exímios (Isabella's Bop), com a apresentação de uma especialista maior em filosofia/estética e história de arte, com a leitura polifónica de poemas do livro tendo por fundo a projecção de imagens que serviram de rampa à construção poemática, com um fecho sublime protagonizado na guitarra portuguesa por Luísa Amaro (companheira de vida e de palcos do saudoso Carlos Paredes) e do primeiro clarinetista Gonçalo Lopes, que interpretarão uma composição inspirada nesta obra A tela do Mundo.
Depois haverá autógrafos e, sobremaneira, as dedicatórias sinceras e gratas que quero deixar nos vossos livros, que serão a vida do meu livro, e, finalmente, um beberete oferecido pelo Museu do Fado.
Sei que comprendem, com o coração, que a situação ocorrida não me torna merecedor de uma penalização, ou melhor, da falta de pessoas que tanto faço questão que estejam presentes.
A Todos agradeço. A muitos, desejo e acredito, até dia 6 de dezembro no Museu do Fado para co-celebrarmos o nascimento de A Tela do Mundo.
luís filipe pereira

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

LANÇAMENTO DO MEU PRIMEIRO LIVRO DE POESIA: A TELA DO MUNDO

A Tela do Mundo, livro de estreia de Luís Filipe Pereira nos meandros da poesia, propõe-nos um diálogo entre a palavra poética e um conjunto de pinturas e pintores contemporâneas (de Vieira da Silva, Antonio López, Helena Almeida, Miró, Chagall, Cézanne, até aos desenhos do Poeta António Ramos Rosa, Graça Morais, Frida Kahlo, Tàpies, Júlio Resende, Paul Klee, Edward Hopper, João Vieira, Laura Cesana (uma pintura sua, expressamente realizada para o livro, dá rosto à capa idealizada como uma tela) Helena Almeida, De Chirico, van Gogh, Magritte entre vários outros).Um livro que explora o enlace ou concerto de duas artes: a poesia e a pintura, numa reinvenção da linguagem segundo o mote lançado por P. Klee para a arte moderna: "dar a ver o invisível" e convertido pelo autor de A Tela do Mundo em versos como:"O encontro dos lábios/ com a paisagem dos dedos". Este livro, como se tela em branco a ser pontilhada pelos sulcos de cor recriados pelo olhar dos leitores, nascerá no dia 29 de Novembro, às 18h45, na Livraria Byblos das Amoreiras, com apresentação da Professora Doutora em Filosofia/Estética A. Isabel Clemente (autora do Posfácio da obra), num evento pautado pela interartisticidade, pelo "encontro inesperado do diverso" (M. G. LLansol), por hibridismos de artes e polifónicos modos de dar a ver sob o signo do Poético em sua amplitude poiética e aiesthésica.
"Universo poético, rico, muito rico, que é preciso ir descobrindo, linha a linha, poema a poema, em que nos vamos deixando enlear e cuja magia persiste para lá da leitura." (Isabel Clemente)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

17.10.08: ANIVERSÁRIO DE ANTÓNIO RAMOS ROSA: O MEU POEMA PARA ANTÓNIO RAMOS ROSA

(António Ramos Rosa, Fotografia de João silva)


“Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre”
António Ramos Rosa, “A Paixão do Ar” in A Construção do Corpo




PARABÉNS ANTÓNIO: o olhar de Ramos Rosa





O olhar de Ramos Rosa incita à viagem nos interstícios do invisível
num esquiador silêncio mergulha até às entranhas da página
e instaura o quiasma intérmino das puras figuras
Rasgão e juntura ao rés da secreta espera e da ignota seiva
no caminho sem rumo
rumo à lenta casa do poema
O fogo e a água irisam-se nos socalcos do terrear
abrigam-se no traço do corpo que estua na paleta do olhar
então a mulher é o flanco da casa que pigmenta o horizonte
O olhar de Ramos Rosa sangra na lonjura de pedra de um animal olhar
imóvel vai até ao espaço futuro da fonte
buscar uma linha errante no azul aroma do sema da ferida
Invenção do domínio das cores a prumo
retina a retina
mancha a mancha
pálpebra a pálpebra
captando a carnal energia do espaço de uma liminar frescura.
Onde o saber deste olhar? Sabor aéreo sabor subterrâneo
umbilical perspectiva no pulso do olhar
que em si guarda as infraestruturas lídimas da paixão do Ser
O olhar de Ramos Rosa onde o gesto principia
e desenha o rosto da cinza sob o olhar do fogo
que dança irrompe na cavidade do ver?
que luz se completa na fenda selvagem?
que palavra nasce dentro desse olhar?
Rastro e astro de silêncio
olhar de sede
elementar
então o visível é a anunciação do invisível
no subtil desvio da mão como a origem entrevista



luís filipe pereira

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

(imagem:Filipa Amaral "Black and orange composition 02 with cuts") A CASA DO POEMA


A CASA DO POEMA
Qual comboio rápido nos carris espaçados
Entre foragidas aves a perder de vista e negras linhas do adeus
A casa vazia nocturna e vasta morde a ínfima espiral da memória
Como se respondesse à deslocação do verbo sob as unhas
Seus olhos dão-me um remo os meus dão-lhe a estilística do mar
Se descer as escadas ouço as aves a beber a lua amarrada ao poço
E vejo o gelo a atear o que escrevo
E devora-me a casa com o seu peremptório frio de escombros

Igual ao comboio rápida a casa partiu para só regressar por alturas da solidão
- Há um mar a arder por trás do muro
Uma flor a desabrochar negra asa cântico de morte
Sonâmbula liturgia na boca da noite -

Se descer ao silêncio despedaçam-se as varandas que alçam os ossos e a voz
E vejo o tronco do ar e tranco na minha garganta a sua sombra esguia
O caminho até à janela é a distância de uma palavra sublime fruto submerso voo
Cada parede cada esquina cada palavra cega tudo apeadeiros em fuga
Tudo divisões remendadas rasando os confins da morte na falha adiantada do amor

luís filipe pereira

sábado, 27 de setembro de 2008

IMAGEM: GIACOMETTI, L'HOMME QUI MARCHE SUR LA PLUIE/1948: CHUVAS DE IR




Declinam em gotas os teus passos?
Tu conhecias as casas habitadas pelo som das chuvas. pelo ruído das lágrimas onde o choro de quem se ergue torna mais subtil o som das águas. tu erguias-te e as agulhas do teu sangue limpo cosiam as agulhas dos pinheiros. querias atingir o mais longínquo.
Vejo-te no espelho deste vidro. vejo-te subir o estuário das ruas e da noite: és barco de água parada na brusca aceleração do espaço em que estagnam as esculturas.
Tu descobrias nas paredes das casas um fio de água como um fio de tempo e por mais passos luminosos que escorressem numa perseguição de anzol tu sentias como a vida se entorna veloz e inteira sobre uma folha de aço. tu vias a fosforescência das células em tantas células sobrepostas. as reproduções de ti próprio modalizadas por rectângulos de nitrato de prata.
Se te ergueres acaso grita a mudez do teu retrato?
Tu aprendias com as sombras. com os seus estilhaços. não tapavas a cabeça para recompores a sombra conhecida da ácida solidão dos corredores percorrendo-te até ao fim do mundo. até ao fim das chuvas manchando de aragem os pinheiros. só o vento te esticava as pálpebras e os braços nessa vigília das chuvas. no entanto caminhavas.
Para que chuvas de ir rumam os teus passos?
vejo-te no meu pensamento quando desvio os olhos do vidro. nele esgueiras-te e desandas e nada perguntas do que de mim se extingue na superfície do espelho. no meu pensamento há um pinheiro pesando-me de verdes desabrigos e chamo ir a esta janela virada para ti enquanto os meus olhos tracejam o modo de delimitar esta chuva. este rastilho de água a continuar a negra sede
do homo erectus?

luís filipe pereira






segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Já nos escaparates, Revista Umbigo/setembro, com ensaio meu sobre livro de Rui Nunes: eis um excerto breve

Título: Ofício de Vésperas de Rui Nunes ou nas Antevésperas de Deus (por Luís Filipe Pereira)
"O que mais surpreende neste Ofício de Vésperas é o carácter prévio da visão relativamente à palavra e ao seu trabalho de nomeação. Trata-se de uma visão que frequenta, sem concessões nem paliativos, uma "paisagem convulsiva" (Relógio D'Água, 2007, p.42), que é a que sobra dos lugares de abandono abertos pelo não-lugar de Deus. Uma visão que acompanha a voz do escritor, mesmo se essa voz se transforma num irreparável grito inarticulado: "do mundo dos lábios, a separação do olhar de Deus" (p.11). É então desta separação, a negro no original, que resulta, de forma diferida, o olhar de Rui Nunes como um olhar, irremediavelmente, separado. A travessia das múltiplas vésperas - da infância, do luto, da neve, do fuzilamento, etc. - que este livro propõe é comparável a uma funda experiência de constantes estilhaçamentos, pois o sujeito enunciador como que grita desde um sítio onde se perde - e, com ele, nós leitores - até um sítio de não se encontrar."..................................................servem as reticências para convocar-vos, em primeiro lugar, à leitura do excelente livro de Rui Nunes, em segundo, à aquisição da Umbigo e à umbilical predação das suas in-tensas matérias, incluindo o prolongamento deste meu Ensaio, hic et nunc , apresentado para os generosos intertextuantes deste blog nestas breves pinceladas, bem como da belíssima ilustração de Mónica Santos (a quem agradeço) que, acompanhando o ritmo do texto, é um eco visual dos diversos estilhaços coligidos no Ensaio.
luís filipe pereira

domingo, 14 de setembro de 2008

PARABÉNS ANTÓNIO RAMOS ROSA (felicito também os demais distinguidos de inexcedíveis méritos)


12-09-2008
Eduardo Lourenço, Óscar Lopes, António Ramos Rosa e Manuel Alegre distinguidos
A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) anunciou hoje a atribuição da sua Medalha de Honra aos ensaístas Eduardo Lourenço e Óscar Lopes, ao poeta António Ramos Rosa, além de outras personalidades da vida portuguesa, como Paula Rego, Júlio Pomar, António Manuel Baptista e Mário Soares.
A SPA considerou que estes autores merecem a distinção "tendo em conta a inquestionável relevância e representatividade da sua obra" e indicou que a data da entrega será anunciada em breve.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Ilustração de Mónica Cunha (que generosamente a artista me dedica) & um poema em dia-logos


Para a Mónica Cunha,

Felinos fluviais os teus olhos estuam
nas silenciosas esquinas que
refazem a carícia do rosto
quando intacta é ainda a pele
dos caminhos

dos pólenes
por inventar.

Tens o caminho nos teus olhos
e um verde rio farejado
pelo pé em meditativo salto
sobre o poço aromático
em precária levitação.

Aos teus olhos nenhuma venda os detém
porque rasgam o desconhecido
e nenhum enigma mais extenuado que um nome
pode travar os seus verdes passos
esgueirando-se da moldura ao encontro
das fluidas margens da frescura:
eis um passo a anunciar um passo
rente aos bálsamos dos caudais
de um cego chão

iminente
prometido.

Oscila o horizonte a cada passo teu
levitando nas antevésperas da locomoção.
Sempre um pouco mais.
Porque os ombros do chão
já os trazes no desvão desacomodado dos olhos.

Avanças o pé onde uma frágil flor tatuada
está destinada a eclodir num sopro de estames
mal sintam os teus olhos antecipando sulcos
abrigos

na estropiada venda que espia
o claro cheiro de um chão.
Porque outros trilhos duráveis
como pássaros tenazes
alternadamente desvendam
os dois insignes luzeiros das íris
instigando o pé a deslizar nas perfumadas
bermas doutros caminhos.

luís filipe Pereira

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Foto gentilmente oferecida pela escritora brasileira Paula Cajaty: folhas sobre o Rio de Janeiro



para Paula Cajaty

uma inscrição a sangue seco

na cinza do céu do Rio de Janeiro.

como se fosse um lamento de seiva sequiosa

de versos de verão.

dulcíssimas folhas esperguiçando-se

como refulgentes relógios de sol

escrevendo os trópicos aéreos

em que nasce a tremenda nostalgia.

folhas, feridas do outono, de almíscar e de amendoeira

em flor adiada.

erguem arcos de sol e salmos

entre os brancos baldios dos braços

na sua fecunda sede da flor.

são cálidas caligrafias como candeias solares

do intacto iodo e do sul infinito.

folhas, litorais do levante, de crescentes abismos

a meio do vento no meio-dia do céu.

luís filipe pereira

quarta-feira, 30 de julho de 2008

ANA HATERLY, série 1999: O Pavão Negro & poema da poeta-pintora & UMA GLOSA (minha) d'O Pavão Negro

"O pavão negro da escrita
abre um leque de opções
exibe o luxo
do seu traje-cárcere
Babel silente
no vazio da página
prende o tumulto da voz
fixa o assalto da mão
Última instância rebelde
é jogo
luta
luto
grito calado"
Ana Hatherly,O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003, 19
_______________________________________________________________
O pavão traça-se______________
escurece o inumerável grito no obscuro esgar de cada grafia
crescem nas líquidas caudas manchas melodiosas
como se fossem fatias do ensombrado canto do sol
a mão acompanha a mancha de tinta musical
que o tempo virá esclarecer nas elegias que na tela esvoaçam
e fazem da página da alma uma discordante demonstração
do sismo
do susto
do silêncio
dos agudos leques mastigando a mão até à língua misteriosa dos olhos
o pavão traça-se____________________
é uma imagem que se abre sobrevoando no grito a garganta inclinada
para o mágico pavão num instante de negro
para a mancha a sabotar o poema porque prévia ao signo
o pavão traça-se__________________
e no bando pousado na boca dos negros nomes sacode-se
a solitude da pele sobre o papel do pavão sobre a pele
dos espaçamentos
das entranhas
o pavão traça-se_________________________
transviado engole na mão as asas do espaço sobre a escrita-tinta.
luís filipe pereira
_____________________________________________________________
Ana Haterly/Pavão Negro (1999)

terça-feira, 22 de julho de 2008

Talvez Seja Silêncio Só (Foto de Paulo Nozolino)


sobre a pedra deitada sob a cinza das nuvens. talvez silêncio só assome aos teus ouvidos.
talvez não tenhas desistido de levantar um braço até ao bramido da estreante estrela que tarda. apenas recuperas no rumor da pedra o calor do teu corpo cansado da espera do que tarda sempre. perdeste o navio e as ilhas emplumadas. detrás dos passos rasuraste as pegadas do caminho que em teu coração talvez anunciasse o mar. aproximas a pupila da longínqua noite obscura como se escutasses com têmporas de terra a erupção da lava também tardia.
só a pedra te afaga e afasta o pranto quando do teu peito há tanto se evadiu uma ave exangue de sangue e de luz. só a pedra te pacifica e é fria como um acorde de sol incomensurável e que invariavelmente tarda. sobre a pedra já nada te acontece de mal e da sombra e da cinza agora podes tecer a lâmpada de um lábio que levante o viço de um abrigo sem fim.
sabes-te nulo até aos ossos embora te revejas noutra pele que teces na partitura de reticências traçadas no raso chão sob uma colmeia negra de nuvens.
às vezes para lá dos céus e dos chumbos. para lá dos caminhos e das clavículas das esperas uma paz de pedra embala-nos a esmo e a solidão do universo sabe a uma doce superfície.
talvez te encontres agora a assobiar contra a agonia da terra à flor do teu corpo liberto dos caminhos, companheiro das nuvens e do ocaso das cinzas. talvez a estrepitosa espada do silêncio sele no teu assobio um timbre que seja mais tarde a simples restauração da luz.
estás sentado sobre a pedra talvez a mascar com as gengivas da sombra a mínima submissão à compassiva chegada de um esquife estrelar. talvez tarde. só a pedra será a balança de pesar os barcos das tuas preliminares partidas.
só a pedra que agora te agasalha e escurece poderá ser a voz do meu espanto e a berma translúcida do caminho a dar ao baldio deste texto.
luís filipe pereira

sábado, 12 de julho de 2008

O VAZIO: Sempre o mesmo sopro em tantos sopros diversos (fotografia de Ricardo Tavares)

ele dava um passo para ele. não recuou. como se amasse as mudas cicatrizes do abrigo. a sombra no som da luz sempre mais lenta é a soleira do míscaro chumbo.
às vezes a escuridão deixa morrer o corpo com um gesto inacabado.
oscilante na sua ilesa incompletude entra. mas o quarto interpõe-se entre os seus passos como uma branca palavra suspensa num brilho de boca. primeiro o pé como um signo instável, a perna depois e depois o tronco. reconhece o lugar. o vazio sobre o vazio.
olha em torno desconhecendo para onde se voltar.
é talvez o seu quarto. é talvez o exílio de um deserto extreme como uma acolhedora linha de anca. é uma esquírola de abrigo. é um negro derrame na intermitência dos passos ante um degrau destroçado.
estende-se o vazio como um osso horizontal. como um reconhecimento construindo-se num rectângulo estagnado.
sorri-lhe. na cega memória que tem dele.
sabe que se gritasse ouviria o eco de um nome único. o seu nome soletando-se na silente e sequiosa contagem dos passos.
está na viscosa meia-noite do vazio e agora o quarto tem a amplitude do quebrado arco da sua fronte. poderia mesmo esgoli-lo caso soubesse entender-lhe o sentido. mas a melancolia do silêncio sai, num sopro de sopros, da crisálida de âmbar dos seus olhos, afagando as declinações do abrigo que o texto percorre como vagarosamente um cão sem dono.
luís filipe pereira

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A SOMBRA NO SOALHO (fotografia de Francesca woodman, 1976)

este é o meu esboço. abriu a permanência da pele. permanecer. girou a imóvel grafia do gesto num lateral alvoroço de silêncio irreparável. em redor das mãos vejo outras mãos roendo-me como muros. sentada desenhou o corpo que fazendo-se rarefazendo-se nas tábuas que desobedecem às têmporas. sento-me sinto-me. o corpo caminhava colado ao chão como um filme mudo. revolveu a poalha da recordação.depois, a luz patriarcal ao rés das pernas. quem vive no soalho além de mim? cada tábua era a única verdadeira mão que voraz se estendia. lentamente lançou outros ângulos para lhe cercarem o corpo. cegamente deixo-me deslizar para dentro. um a um, os ângulos feriram o soalho até que de joelhos o espaço descruzasse os invisíveis pulsos. rodou a linha de uma dúvida. leu no cavalete do corpo a mudez. mudou as frestas portáteis sob os pés. percorro-me. com a suavidade da dúvida irresolúvel como um traço iminente entre os dedos desferiu a dor da semelhança. rasurou-a contemplando-a na matéria da madeira. estou aqui estou ali nesta hora de desmando neste diferido desacerto. aguadamente sobrevoou as pegadas do assombro para mergulhar numa órbita imaginária sob o enclave da sombra. na seda especular do soalho cravou o corpo encenado por entre as malhas do medo como o véu de uma voz tábua a tábua volteando. em imagens falo-me em micro-écrans escuto-me. decidiu-se por um ponto de partida: traçar nas tábuas um repetível resíduo. permanecer. fechou na pele a pele. no soalho desenhou o provisório som da permanência.
luís filipe pereira

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Obrigado Fernanda por este texto sob o signo da Cal

Perscruto algo que me faça entender o uso da palavra “cal”. Sim. Não raras vezes, encontro-a nas prosas e poemas de vários autores credenciados, como António Ramos Rosa, João Rui de Sousa, Luís Filipe Pereira. Como se não bastasse, eis o último livro de José Luís Peixoto. Na sua capa, apresenta uma fotografia de uma mão magra, envelhecida e com os seus ramos circulatórios bem marcados. Esta mão empurra, como a querer voltar ou recordar a sua passagem, um pedaço da parede de um muro branco, que deduzo ser pintado a cal. Quando digo muro, é mesmo muro. E a mesma palavra, “Cal”. Assim é o título deste seu livro em prosa. Tento entender o valor da palavra “cal”. Então, escrevo…
Os dias, estão quentes, muito quentes. O sol queima nos corpos, na areia, nas matas, nas casas. É tempo de busca na protecção. Alerta laranja, vermelho, perigo de autocombustão. É tempo de proteger as memórias do passado. Longevidade. A sua rigidez, através do símbolo do próprio tempo. Cal. É a sua cor. O branco que a reveste acaricia na calma e acalma a transparência de olhares sentidos. Sensibilidades presentes e sólidas. Na pobreza de suas casas está a grandeza da força da cor e dos gestos térreos. Gestos brancos. Rostos que esboçam sorrisos. Estátuas que sabem articular palavras, que o vento e os poetas, quando chegam, se encarregam de levar, até onde lhes é permitido alcançar.
É cal, a linguagem dos nobres humildes.
Dite Apolinário

sábado, 21 de junho de 2008

1º Prémio Do Concurso Literário "Dar Voz à Poesia"/2007/2008

O painel de Júris composto pelos Professores Doutores Isabel Pires de Lima, Maria João Reynaud, Pedro Eiras, Rui Magalhães, Paulo Pereira e António Manuel Ferreira, deliberou a atribuição do 1º Prémio a este meu poema - a pausa- que partilho com todos os visitantes desta janela de um escrevente abrindo a todos a casa dos afectos e das intertextualidades.


(a pausa)

com julieta de bella bartók abro a última porta para a noite
diante dela assombra-se o pássaro da intimidade ante a pausa do ser
a noite é um nome sitiado no luar à beira da mutilação
a última porta é o intervalo de uma palavra na luz de incerto lábio

ouço os decibéis oblíquos de um melro concentrado no desvio
diante dele os olhos do espelho descem pelas escarpas da casa
aproximo-me da silhueta nublada do plátano e do sabor nupcial do piano
julieta é o sopro das sonatas lentas sobre a copa musical do longo ditongo

o pássaro transcorre do pudor e pousa uma asa nua nas entrelinhas de neve do texto
a última porta pulsa como um felino de sangue fragmentando o teclado
respiro os andamentos do horizonte revelando-se fenda a fenda como um fruto
a música arterial da noite mune o núbil cântico de julieta nas crinas dos cometas

a última porta permanece aberta como uma pedra primitiva e ardente
no desvio do cântico o melro escreve a paisagem com o dedo purpúreo do poema
os alvéolos estelares já encontraram o poço a esmo nos alicerces da pausa
julieta é o tremular das codas de tâmaras que a noite clarifica

com julieta de bella bartók abro a última porta para a noite
e sob o efeito da pausa ponho a ébria água do poço a sonhar com orquestras de peixes


luís filipe pereira

http://issuu.com/jmuge/docs/voz_poesia_12/6?zoomed=true&zoomPercent=100&zoomXPos=1&zoomYPos=0.21217391304347827

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Acaba de ser publicado na Revista Umbigo este meu conto:Eis o início-convite

O escritor à procura da personagem


Vicente estava sentado a uma mesa num café de aldeia igual a tantos outros cafés de aldeia. O sol incendiava-lhe os joelhos sob as calças brancas da cor do tampo da mesa macerado de manchas, círculos de borras, nomes a canivete. Pediu um café. Era meio da tarde. Os pássaros debicavam migalhas e sombras.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

ESTOU VIVO E ESCREVO OBRIGADO

Obrigado ao António Ramos Rosa: ao Sol maior do "círculo de Festa" da sua poesia, ao traço selvagem com que me inventa um Endoespaço, aos nomádicos instantes de aguarela. A sua poesia vela, verso a verso, o meu horizonte na espacialidade do vivido. Obrigado, António Ramos Rosa: pelo círculo azul de uma casa em devir como Ocupação do Espaço: espaço do tempo, raio do mundo eis uma poesia, onde, como relâmpago de assombro, residirei sempre. Obrigado Professora Doutora Isabel Clemente, o tesouro de um filão de afecto, a sua presença, o seu fundo fundamento para acreditar que será sempre demasiado cedo recomeçar a morrer. A minha Professora de Estética, que me deu a ver o céu de carpaccio, o belo de Platão contra os escolhos cavernosos, a cognição sensível e a cognição entusiasmada. A minha orientadora na filosofia e na vida. A minha amiga até ao subterrâneo infinito que me consagra na vísível certeza de um puro espaço onde redesenho o mundo do alento. Obrigado amiga Professora Doutora Isabel Clemente por ter-lhe dedicado a minha Tese. A Maurice Merleau-Ponty, ad infinitum, in memoriam, a tarefa da sobre-reflexão de uma latência ardente nos arabescos do desejo, nos ângulos da carne e da coexistência. Obrigado a todos os que trouxeram com a sua presença a emoção da partilha à volta do espaço de fissão da Poesia de Ramos Rosa, propagarando na genorosidade dos gestos o núcleo fraternal da sua Poesia (Pai- Mãe porque não estando estavas e estás/estão sempre, Mano- mana que não estando estás/estão sempre, Soraia, Margarida, Constança (o devir das crianças legentes de Ramos Rosa), Ruí Cecílo, Antónia Rosa Ramos, Patrícia de Bastos, Inês Nunes, Gisela Ramos Rosa. Obrigado a todos os outros presentes. Obrigado a todos os que ausentes sei que não estando estavam/estão sempre.........).
Obrigado ao brilhante painel de Júris que engrandeceram e validaram as implicações que fui capaz de suscitar com o meu estudo:Directora do Curso De Mestrado Em Criaçãoes Literárias Contemporâneas, Presidente do Júri, Professora Doutora Antónia Lima, Orientadora Professora Doutora Cristina Firmino Santos, Co-Orientador Professor Doutor José Bettencourt da Câmara. Obrigado à extaordinária e sempre rizomática, arguição do Professor Doutor Carlos Couto Sequeira Costa (agradeço também os Traços sobre o Traço para o Doutoramento sob o signo de António Ramos Rosa): A unanimidade na atribuição do muito bom translado-a para o sortilégio da unanimidade da extraordinária Obra de António Ramos Rosa. Obrigado. Este dia é Ramos Rosa (O6/O6/2008) " Porque em ti o mundo se redime e toda a magia é a realidade da palavra"(António Ramos Rosa).
luís filipe pereira

quarta-feira, 4 de junho de 2008

PARABÉNS ANTÓNIO RAMOS ROSA: Que Privilégio estar nas vésperas de defesa de Tese sobre a sua Obra


PRÉMIO DE POESIA DO NÚCLEO DE ARTES E LETRAS DE FAFEATRIBUÍDO A "ROSA INTACTA", DE ANTÓNIO RAMOS ROSA O livro Rosa Intacta, do poeta António Ramos Rosa, editado pela Labirinto, foi o vencedor da primeira edição do Prémio de Poesia do Núcleo de Artes e Letras de Fafe.O Prémio foi como forma de homenagear, promover e divulgar este género maior da literatura portuguesa e destinou-se a galardoar o melhor livro de poesia submetido a concurso e publicado entre 1 de Janeiro de 2ca006 e 31 de Dezembro de 2007.O Júri integrou o Professor universitário João Amadeu Oliveira Carvalho da Silva, João Ricardo Lopes, em representação da entidade organizadora e Fernando Pinheiro, em representação da Associação Portuguesa de Escritores.Presidiu, em representação do Núcleo de Artes e Letras de Fafe e sem direito a voto, nos termos do regulamento, o presidente da Direcção, Artur Coimbra.Analisadas as setenta e duas obras concorrentes, provenientes quer de Portugal, quer do Brasil, o que foi devidamente relevado, o Júri deliberou, por unanimidade, atribuir o Prémio à obra Rosa Intacta, de António Ramos Rosa, "considerando tratar-se de uma poesia cheia de beleza, marcada por um erotismo depurado e maduro, onde se evidencia uma mestria com que o poeta trabalha o corpo e a nudez feminina, através de uma reconstrução incessante da perfeição dos seus modelos".A entrega do prémio, no valor de 2 000 euros, será feita em data a designar oportunamente. António Ramos Rosa é um dos poetas mais importantes da nossa contemporaneidade. Nascido em Faro, a 17 de Outubro de 1924, a partir de 1962 instalou-se em Lisboa, vivendo exclusivamente da literatura, opção que levou Bernard Noël a considerá-lo o "Francisco de Assis da poesia". Poeta reconhecido, traduzido e premiado internacionalmente, recebeu já inúmeras distinções, como o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (1980), o Prémio PEN Club (1980), o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1989), o Prémio Pessoa (1988), o Prémio da Bienal de Poesia de Liège (1991), o galardão Poeta Europeu da Década, atribuído pelo Collège de LEurope (1991), o Prémio Jean Malrieu (1992), entre outros. É condecorado como Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada em 1984 e com a Ordem do Infante D. Henrique em 1997. Em 1999, sob a égide das comemorações dos seus setenta e cinco anos, foi anunciada a criação em Faro da Casa da Poesia António Ramos Rosa. A 17 de Outubro de 2003 foi agraciado com um Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Faro. Criador incansável e genial, autor de obras únicas desde O Grito Claro, o seu primeiro livro em 1958, escreveu mais de oitenta livros de poesia, para além de uma impressionante participação no domínio do ensaio e da tradução.

sábado, 31 de maio de 2008

VOAR PARA O MAR com Bernard Descamps


entre a turbina transparente de uma harpa e o azul anzol do horizonte, amplias o corpo para outra morada.
(à tua frente uma líquida porta que espadana como lume?)
tens nos braços as guelras do espaço que propagam o estrondo dos teus pulsos entre os filamentos das águas.
(escutas o grito inaudível dos peixes vibrando como pedras volúveis?)
mas é nos filamentos do teu sangue que teces os fragmentos do tempo. mas é na desocultação do voo rente à dança das vagas vocálicas que recortas o amor. mas é no círculo do teu corpo que o mar movimenta a sua música macia.
(persegues a voz das vagas que te perseguem?)
tens a rebeldia da luz e da proa. a silhueta de água nos teus dedos desfaz a nuvem do teu nome. atravessas os navios da solidão. escavas as escotilhas onde o olhar extasiado dos náufragos alastra entre as orlas evanescentes dos teus ombros.
(o mar é a latitude da tua sede?)
segues o rastro subtil de ínvias transparência: lágrimas invisíveis troam no teu abraço flutuante.
em ti, se partires, se voares para o mar, o tempo volta à imortal voltagem das vagas. procura-te o mar que tu principias.recrudesce a espuma para a tua e minha esperança. tens o milagre do mar a percorrer o teu peito. tuas mãos são vazias. tuas mãos tão irreais. as tuas dedadas de água são lume e são lâmpada nos meus lábios.
(visto que voas para o mar, por alguma líquida razão, na desrazão do teu voo escrevo: o mar existe, uma ilha canta no teu corpo ileso).
luís filipe pereira

terça-feira, 27 de maio de 2008

VOAR (Série de 2001) com Helena Almeida/ Fragmento


voar parede adentro. perfurar o deserto com asas de areia. tão leve é a luz do voo que o estuque se dissipa. voar: eis um roçar intérmino sobre as paredes interiores. sobe a sombra a dedilhar os vestígios do vento e a cinza segue o caminho sedento de carne aérea. voas.
vens ao meu encontro se esvoaço sob a língua que diz o teu voo?
as tuas mãos já passaram através da parede enquanto se desmorona a gravidade. sem lei e sem bússula já anseiam os teus braços pelo ar. espalha-se a cinza em espasmos de cal e o ar extingue-se no ar no vendaval do teu corpo. voas.
como posso eu acompahar-te jazendo aqui com o chão continuando o pó das palavras?
os teus ombros olham os oceanos separados da escuridão como barcos bramindo contra a obscuridade.ouço-te as asas sob os pregos do soalho parecendo surdir dos meus ouvidos. voas.
virás soltar-me da cadeira em que escrevo se sobre ela deixaste uma interrogação continuada?
a tua cintura é já cristal flutuando entre os cristais das constelações que imitam as aves.voas.
trazes-me asas para o voo?
sobre a cadeira que deixaste ocupas o lugar destas palavras.
é uma forma fugitiva de estar no teu voo?
então empurro-te as pernas parede adentro. empurro-te os pés. estou voltado para a parede.é para ti que o mundo dos mundos está voltado. voas. sentado sobre a cadeira com a parede defronte pousa a minha mão na página como se pousasse sobre uma pedra. mas tu estás nos espaldares do mundo. o teu coração é o coração do mundo. diante da parede sei-me atrás do horizonte. sei-me no poente dos passos. sobre a cadeira como cratera de chumbo. mas voas. no interior do teu corpo exila-se o teu corpo.
voas. voa.
não quero reter-te nas palavras.
voas. voa.
luís filipe pereira

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Do Lido e do Visto, "Arte poética" de Daniel Faria (Quasi Ed.) & Magritte

"A palavra despe-se

O silêncio despe-se

Nus

Os sexos ardem

Os seios da palavra

Os músculos do silêncio

O silêncio

E a palavra

O poeta

E o poema" (Daniel Faria)

a palavra percorre os sentidos. mergulha na margem da carnação sem destino. tacteia sem perguntar para troar a pele no seu langor de lâmpada. a palavra nua frequenta o domínio encantado e suporta na luz dos seios a pausa de sede entre dois sons. como achas os sexos segregam nos corredores da noite suas luzes vacilantes como versos. versos sobre ventres. sobre trompas de silêncio. o poema é uma pele encontrando outra pele que nela se abriga. o poema e o poeta: duas mãos que migram palavra a palavra. músculos descaindo para a cintura até à nua linha do osso nítido onde escreve uma esquírola de desejo o esmalte dos degraus alçados pelas despidas palavras.

luís filipe pereira


quinta-feira, 15 de maio de 2008

Do Lido e Do Visto: Poema "De Bombordo a Estibordo"de João Rui de Sousa (in Quarteto para as próximas chuvas, D. Quixote, 2008)& Vieira da Silva

" E navegavam
- tal como em tabuleiro de xadrez já muito gasto". e por vezes o tabuleiro, depois do marfim misturado, dura além do assombroso anoitecer das mãos concentradas em manusear o claro-escuro das peças da conjugação do mundo. lentas as mãos avançam "pela eterna constância das diagonais". num langor de sombra as mãos protegem na ávida solidão o taciturno rei. e levam a rainha a desplumar a esmo os espelhos invertidos nos olhos de silêncio do outro jogador. a rainha mais veloz do que o trote vesperal dos cavalos.os dedos gastos empurram os esgotados corpos dos peões. corpos cravejados pelo veneno da insobrevivência. despedem-se sem um silvo e rolam rútilos sobre as margens lôbregas da mesa. reerguem-se as torres. "torres rectilíneas, vigilantes, /abrindo em suas trompas o seu espaço". os esgarçados dedos nelas pousam o plinto do apelo dos peões esmagados. as mãos ascendem no tabuleiro ardente. efémero como um compadecido trapézio de treva no ondeio das peças cada vez mais desconjuntadas. crescentemente o mundo é o mastro quebrado no baixio dos braços. nenhum fulgor sobrevive. ressuma o rastro de escória entre a vitória e a derrota. ambas estrelas mortas "de um tempo fragmentário, fustigante". sobre a mesa o tabuleiro vazio como um vulto bastardo sobrepõe-se à linha do mundo. troa a teia. as mãos arrastam o seu séquito de nada até aos bolsos e afundam-se na sombra àspera do sono. o mundo sobre a mesa recompõe as peças como golpes reclusos. a eles retornarão os jogadores que hão-de recomeçar. que hão-de revolver o lodo dos destroços com as mãos pacientes em demanda dos prelúdios de portos. os jogadores hão-de coroar o passatempo até que se convertam, "de bombordo a estibordo", aos alpinos ceptros alçados por pulsos de pedra.
luís filipe pereira

segunda-feira, 12 de maio de 2008

11 de maio de 2008 ou na resssaca de uma tarde prodigiosa: lançamento de As Vindimas da Noite

museu nacional de arqueologia. visíveis os vestígios. a filigrana dos gestos. os trilhos e as luminárias das vésperas redivivas. ânforas e diademas de silêncio. vasos de sede voltados para o tejo. mapas de singrar no tempo. moinhos de singrar no espaço em rotações remotas e deflagrantes. uma sala com a nobreza das nebulosas e do cinzel. com a dignidade ígnea das esquadrias afáveis (contra a retumbância da solidão dos barcos amurados na cidade) como manchas de elipses. ecoa a música e a memória feliz expande-se, andamento a andamento, pela luz fluvial debruçada no ciclorama das janelas. o piano e o violoncelo remam com o saxofone em duas canções de F. Sor. a guitarra de Ricardo Barceló estende a esteira do instante ao canto de José Corvelo. Na capa de Júlio Cunha do livro de Maria do Sameiro Barroso - As Vindimas da Noite - adormece um rosto que sonha socalcos de afecto ou vindimas entre as palavras e a penumbra de júbilo dos violinos. as pálpebras cerradas numa refulgência de portos escutam melhor os estuários calorosos do vinho derramado (são secretos corredores estróficos). o sonho crepita. a cal floresce. apresento o livro através de uma tetralogia de socalcos. a voz desmuralhada de Isabel Wolmar apanha os bagos dispondo-os na mesa comunial da poesia. o mar entra no tejo tingido do vinho ou os versos encontram o mar no seu bramir de bagos. de barcos. de brisa. os moinhos dançam (uma valsa de versos encontrados). o museu está vivo. (ouve-se o rumor secreto do ouro). o museu cada vez mais arqueológico. cada vez mais vivo alçado na festa dos poemas. no vocabulário dos encontros como uma vagens de búzios. assim foram as «palavras acesas»: "As vinhas eram rios vermelhos que, na louca/respiração da chama, ascendiam. /Nos jardins de absinto, a música ecoava, /em paraísos doces" (in As Vindimas da noite, p. 43). estavam descerradas as pálpebras do rosto sobre a capa. despertaram com(também os nossos e de todos quantos lerão este precioso livro de Maria do Sameiro Barroso) "os olhos acesos da segunda lua".........
(dedico este trecho ao Editor da Labirinto, João Artur Pinto: por permitir
os cursos das tábuas de mundo da poesia (por me ter convidado para o Conselho Editorial da Labirinto); à Maria do Sameiro: pelos aromas da amizade e pelos caminhos de neblina da sua belíssima poesia; ao Dr. Luís Raposo: por acolher a poesia num espaço nobilitante: aos presentes e futuros leitores do livro As Vindimas da Noite que abriga um meu posfácio)..............................
Luís filipe Pereira

segunda-feira, 5 de maio de 2008

AS VINDIMAS DA NOITE de Maria do Sameiro Barroso: um livro de poesia onde os as varandas dos lábios pousam nos versos lembrando o vinho



Lançamento de As Vindimas da Noite, domingo, dia 11 de Maio, no Museu Nacional de Arqueologia, às 17horas(apresentação minha e leitura dos poemas por Isabel Wolmar sob a nebulosa de afectos da Editora Labirinto)



As Vindimas da Noite. uma obra de poesia onde retumba o som do mágico mosto de uma criação noite adentro. noite de versos lavrados rente ao ouvido como epicentro de um lugar e de um tempo mais serenos e mais sedentos. abrigando e propagando os meandros da memória. versos tingidos de dulcíssimo vinho crescendo das luxuriantes videiras das imagens. da matéria das metáforas. onde florescem os protocósmicos vinhedos do mundo. Maria do Sameiro traz-nos uvas nas palavras. e coloca-as sobre o tampo do tempo. sobre a mesa das feridas fechando-se por entre os arabescos do silêncio.


nesta obra multiplica-se o vinho nas mesas comuniais da poesia.


entre a música e a memória tornam-se mais claros os tortuosos caminhos cavados em versos que cheiram a vinho. que sabem a vinho. e descem a noite até ao sol descendo a encosta das pálpebras. um livro onde a voz é clara e poliédrica cruzando artes e afectos respondendo-se e enleando-se. uma voz vínica e dionisíaca desferindo acordes insubordinados que um violino sustenta. porque os socalcos são a invenção dos vinhedos do início. por momentos de inebriante leitura ondula a ramaria do desejo de um arco. de uma aliança intérmina com o mundo. com as primordiais margens da luz golpeando a noite arborescente. a noite da criação numa pauta de aromas que perduram como lunações. aquecendo-nos como lábios os criadores labirintos da noite.


As Vindimas da Noite: um livro de poesia ou porque o sol no próximo domingo será mais música e será mais poesia. será mais perfume e será mais malvasia.___________________________


luís filipe pereira

quinta-feira, 1 de maio de 2008

A memória também é um guarda-jóias (dedico este fragmento à Inês Nunes)

os amigos: signos de uma límpida lâmpada. as palavras dos amigos: colares de afagos. amigos. os que nos marcam e nos tatuam com cálidas cores são um tesouro transparente. tão precioso. são um timbre de sílex. jóias semeadas e suspensas nos jardins da nossa pele. amigos: talismâs da terra iluminada. a memória é também um guarda-jóias onde cabem as delícias do alento. as torres de luz que nos levantam. os anéis que nos circundam os dedos como chamas de pontes. os amigos: diademas de gestos efémeros engastados nos diamantes do eterno. se nos morre um amigo morre-nos o poeta que escrevia girassóis nos nossos ombros. se nos morre um amigo morre-nos o sabor de um sorriso futuro. morre-nos um feixe. um figo. ou uma flor. se nos morre um amigo nasce-nos a verdura de um verso de minúcias e de memórias. nasce-nos uma pedra preciosa que permanecerá fruto fulgente. no guarda-jóias do coração transparente de tristeza. porém como aliança de viva alegria visitada e abrigada. tecida pelo tempo e na pele sob a pele tranfigurada..............................................................................luís filipe pereira

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Fragmento de um exercício de zoografeia

ab inicio:

o ovo. no início era o canto verbal dos pássaros. couraças leves de longas cotovias. os pássaros e a pele pernoitavam em uníssono. do canto desnudo precipitaram-se calcárias praias. algas e guelras. pálpebras e peixes. peixes que eram falésias fluviais construindo o corpo de frestas dos corais. devagar adormeciam nos dias os libérrimos cavalos. as crinas ao sol. o trote da sede. cavalos de vento no lugar dos lábios. a gazela dos instantes inchavam nos olhos de gelo dos tigres tardios. cinturas de cio. gatos brancos de pierre bonnard juntavam-se ao jogo e ao grito. o ciclorama da noite acrescentava os galos.

intermezzo:

açougues de assombro até à amestrada náusea: o circo. o elefante e a memória do início bocejam nas jaulas. os papagaios duplicam vozes de palhaços duplicados nas gaiolas. ad infinitum das varandas. aprumam-se os ardilosos pavões das prisões. a pele sangra. o bestiário à beira do abismo. o inventário da caça. a cal das ossadas de sombra: o sujeito e o objecto.

luís filipe pereira

sexta-feira, 25 de abril de 2008

entra. senta-te sobre o lume dos livros (sobre um quadro de Menez/fragmento)

entra. regressas da noite das portas apagadas.

entra.

franqueia as franjas do crepúsculo faminto.entra.

regressa à resina reluzente nas lombadas. como escama. como estrela.

sentes a fragrância a florir nas palavras?

então entra.

navega no navio silábico dos livros sonolentos escritos em segredo. entra nos insones segredos dos livros ainda não livros. dos livros lavados no lume do esquecimento.

entra e espreita as frases em flor que já não podes colher.

adormece.

empurra as portas com os dedos do sono percorrendo os nomes devagar. despe-te da voz que pudesse pronunciá-los. senta-te à beira da boca ao rés da resina. senta-te à beira das labaredas dos livros aquecendo-te as ancas como lânguidos anjos.

entra. afasta as portas e pernoita nas planícies do abandono.

entra e deixa que te leiam os livros. entra e despe devagar os lábios dos livros.

pernoita lá dentro. como os pássaros. entra.

....................................................................................................................... entraste?................................

luís filipe pereira

terça-feira, 22 de abril de 2008

sótãos de salutar solidão (fragmento que dedico a Gisela Ramos Rosa)

"E todos os espaços das nossas solidões passadas, os espaços em que sofremos a solidão, desfrutamos a solidão, desejamos a solidão, comprometemos a solidão, são indeléveis em nós. E é precisamente o ser que não deseja apagá-los. Sabe por instinto que esses espaços da sua solidão são constitutivos. Mesmo quando eles estão para sempre riscados do presente, doravante estranhos a todas as promessas do futuro, mesmo quando não se tem mais o sótão, mesmo quando se perdeu a mansarda, ficará para sempre o facto de que se amou um sótão, de que se viveu numa mansarda. A eles voltamos nos sonhos nocturnos. Esses redutos têm valor de concha." Bachelard, Poética so Espaço..........................................................................

sótãos. estranhos e mágicos recessos de epifanias. alpendres invertidos soerguendo-se na surda música da respiração. um álbum esquecido torna-se vivo. o pó que esvoaça das gavetas subterrâneas late em júbililo quando o percorrem os dedos aracnídeos e nele riscam revoadas de arabescos. linhas. mapas do corpo. espumas de conchas. sótão. ermo coração da casa arfando nos gestos que escutam um texto desconhecido. sótãos para experimentar o infinito num mínimo acto de melancolia. sótãos de aventura quando a casa e o mundo adormecem como um barco à deriva numa consentida espera das vagas ciciando o eu do eu do eu na lucidez de um espaço umbilical que amanhece nos orifícios da noite. da pele. da tela em branco. sótãos-cais. sotãos-centros em que realmente nasço na luz da comunicação para além da comunicação humana. comunico com as traves. com os ninhos sonhados. com as conchas folheadas no sortilégio de um poema a escrever-se sobre os degraus dos meus joelhos. sótãos nos confins do enigma onde ecoam as notas da infância de um piano ausente-presente. tocando em surdina notas de serenidade colhidas nas linhas infinitesimais de um lugar mínimo tornando-se mais lugar do que todos os lugares. sótãos-mundos. sótãos que são exímios sítios da lonjura de mim. atraídos por um traço maior. um verso mais iluminado do que o frio lóbulo de uma lâmpada. sótãos-olhos rolando para a memória do desconhecido. para os olhos das conchas entrabertas. para os arquipélagos da intimidade que são o lugar imóvel do vaivém da tristeza. mas onde a seiva do ser alastrando sótão adentro permanece em nós aprumando-nos as asas. as imagens não decepadas que são promessas de regresso ao eu do eu do eu. que retorna ao soalho flutuante como casco nu embalando a partitura das muitas vozes da nossa voz saboreando o medo no abrigo silente dos sótãos-fronteiras. dos sótãos-passagens. conchas labiando dentro de conchas. corais que proliferam no único lugar de solidão onde é impossível estarmos sós. sótãos-respiração. sótãos que nos respiram quando fechamos os olhos e prometemos regressar ao nosso lugar unitivo........................................luís filipe pereira

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Eco de leitura. do (excelente) livro de Rui Nunes, Ofício de Vésperas, Relógio D'Água, 2007 (fragmento)

Ofício de Vésperas: ofício de escrever o halo de lugares. lugares do abandono e da estranheza. lugares dos avessos da criação: lugares de vésperas e das vésperas. da inclemente iminência da queda. da perda. da morte futura no presente dos mortos devolvendo a cegueira ao nosso olhar. lugares sem deus ou lugares da sombra de deus no limiar do seu nome inomeável. lugares do remanescente. dos recessos do resto. o que (nos) resta? sermos "guardiães do abandono". lugares do enigma entre a inconfidência dos segredos e dos destroços. lugares frequentados pelo olhar além da sede irradiando desde a casa (do livro) como eminente/iminente "lugar do esquecimento". lugares incicatrizáveis e tatuados de nódoas (negras/a negro), aí "onde a morte recomeça". lugares que leio junto à evocação do ler/ver o quadro de van gogh Seara com Corvos onde o caminho do campo (heidegger) leva a nenhures. caminho vingativamente debicado pelas desorientadas e vespertinas asas dos corvos retalhando a muda seara. tavez "com uma fome cheia de rancor". caminhos/topoi que se transportam ao longo das esquinas corroídas da escrita para as orlas do exílio. linhas de fuga ou "placas toponómicas num país estrangeiro". talvez seja na figura do eremitério no ávido árido deserto dos nomes e dos rostos que se espacializam as margens de estranheza do livro a escrever. da palavra a pronunciar. e para sempre impronunciável. palavra-cardo. palavra-sede-sede sem oásis prometidos ou consolos terminais. sem fontanários paliativos. sobra a inevitabilidade de pensá-lo com as mãos e as frieiras estiolando os dedos e sobra na circularidade invertida do fim-princípio a impossíbilidade de senti-lo: "como Deus o era para Kant". lugares interminavelmente vésperas do incansável "trabalho da ruína". lugares cercados. onde "a luz é um cerco" que clareia apenas a mutilação dos contornos e a inevitabilidade dos despojos. lugares da condenação à errância de nós. de um nós anónimo ou pelotão de "emigrantes clandestinos" nas vésperas do fuzilamento. lugares de encontro do fundo e irreparável desencontro. "simples encontro de uma dor com uma dor". lugares de fronteiras. de limbo. de hiato. de desbussolados caminhos ao longo dos quais se percorre o convulsivo esquecimento. porque "a memória é um tempo desavindo". lugares estilhaçados no estilhaço de desenhos rasurados pelas vésperas do medo. porque "é tão breve a pausa do sentido"...................................................luís filipe pereira...........................................................................................................................................................................

sexta-feira, 4 de abril de 2008

"Para crescer, o corpo tem de ser uma mala de viagem" (in Capricho 43 de Carlos Vaz)


o título está inserto no fantástico - criadoramente llansoliano - romance capricho 43 de carlos vaz. o corpo cresce fazendo e desfazendo os instrumentos que animam a demanda de linhas de errância. cresce com os músculos textuais que o vão robustecendo contra a impostura do medo e a tirania dos príncipes imobilizados sob o fardo cego do poder. os príncipes não viajam. a mala está sempre meio cheia meio vazia dos racionais estratagemas e ardis insidiosos que castram e desmantelam o sonho. os príncipes não crescem porque não têm medo ocupados que sempre estão em provocarem o medo para prepetuarem as águas separadas dos que detêm as chaves artificiais do texto em relação aos que ousam a viagem com a chave cega que franqueia os abismos e a insânia e não cessam de crescer. não cessam de arrumar a mala da trajectória sem meta definida. não cessam de procurar a parte louca do mundo que é a restante metade que dá intensidade textual ao crescimento. crescem porque acreditam que as histórias de contar da Mãe são o forro figural da mala de viagem. crescem porque aprendem a vencer o medo e não temem o incessante esvaziamento da mala para lhes ser mais leve a viagem. e não temem os monstros que a razão goyesca sonha. e não temem vagabundar à deriva noLetes. e agarram-se aos lençóis do afecto para a navegação do tanque de cimento que há-de velejar nas águas do texto que arquitectam as ilhas. as singularidades de sermos no espaço-tempo intersticial das metades e dos hiatos. ilhas de temor. ilhas deslumbradas. ilhas de lava textual. ilhas de memória. de terra firme. o homem-que-separa-as-águas há-de osmosear a gravidade de newton e a contragravidade da arte. separa as águas para unir no caudal da monstruosidade figural o leitor e o escritor. o legente e o escrevente. ilhas encontradas sob a protecção da corda da Mãe comunial. que estende as roupas textuais de ambos para que cresçam os corpos sempre que partem protegidos pelos nós da afectividade. levar este livro na mala de viagem é lavar a roupa suja e gasta do intranscendente quotidiano. é levar nos dedos. na pele. no córtex o prisma das cores refractando-se como corda estendida sobre o abismo do texto. é levar o tanque de cimento como o barco que nos cabe no devir da infantilidade rumo à maturidade e vice-versa como unidas metades ao longo da corda que vai de um lado ao outro. de ilha em ilha. de novelo em novelo.de mala em mala. de viagem em viagem. eis o crescer do corpo.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Onde Vais, Drama-Llansol? in memoriam

esta é uma noite fechada no olho fechado da dor. como separar de mim este fruto? como dar-te um beijo dado mais tarde se é tão tarde já para principiar o cântico de narrativa? ó sublime escrevente. que farei sem a Quimera de legente de um novo livro cujo início era sempre precioso? qual Infausta fico também tão só e órfão das cenas de fulgor. a madeira impede já a página seguinte. ó sublime escrevente. que me transformaste em aprendiz de legente abrindo-me o sexo de ler às vibrações velozes da cor da inconclusão. com Témia dormes lendo o livro que fechas com a luz na mão e sem chegar ao fim. o Coração do Urso é o meu coração de gelo na sólida perda dos teus textos vivos. a água fechou-se. tenho os teus livros. os teus diários. os teus sonhos. e uma pacada seca martela-me por dentro a finita infinita falta da tua voz. mas sei que o teu silêncio é incompleto. onde vais? onde vais se até o vento esta noite voa mais alto?___________________é o traço do Jade. a tua árvore reverdece-te no lado de cá da neblina. mas a pancada seca de um teu caderno fechado deixa-me um sabor a sal e a deserto. onde vais se perto, em redor e tão longe. sintra. herbais.lisboaleipzig. miolo da música. esperar o amor____________Aossê. a comunidade do teu corpo comunial continuará anotando à margem a felicidade contra o poder. ode vais?elegia voltas? onde vais? ao silêncio-onde do afecto? o teu texto é xaile. e estamos quase na primavera. quase na orla adamantina das fulgorizações afectivas. falando-se a paisagem se espalhará no ar dos teus livros agora levados por Úrsula a montante da escrita.com Thomás Müntzer choro a tua morte terrestre. in memoriam, hei-de homenagear-te no meu primeiro livro de poesia. tua, ó sublime escrevente, será a epígrafe. Ecce: sou um corpo de ver, e não agir; sou um cosmos de meditar __________________________ ouço-te hic et nunc. ouço a tua voz arbustiva. dizes-me com o teu xaile limpando-me as lágrimas e as agulhas da perda: Quando Mais Fim, Causa Amante........................... luís filipe pereira.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Algo do verde nas algas de Laura Cesana (fragmento)

algo se presentifica no frescor da memória que reverdesce. algo das algas relincha nos alvores submersos entre a poalha de cinza e os espelhos de chumbo que nos impedem o tempo dos insectos. podemos agarrar-nos aos limos de uma infraestrutura transparente e ascender às húmidas constelações. que lembram ouriços e orifícios. algo assoma como um adágio selvagem dedilhado na frágil superfície do instante. das artérias verdes e impantes. algo das algas. algo de um tempo verde com a suas brânquias arborescentes. algo do agora antiquíssimo. algo de oloroso. de substantivo. de oloroso. nas bátegas do verde da chuva que cai do chão e sobe pelas paredes libertas até ao poente de um cavalo marinho. algo das algas. algo das ervas crescendo nos jardins de água........................................luís filipe pereira

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Cenas califgráficas, com A. Sena (fragmento)

como ânforas ancestrais as telas transmudam-se em estriados papiros enxameados de escrituralidades nupciais. a escrita prévia à sintaxe e à museologia das gramáticas onde se extinguem as estrelas. a géstica da escrita. a escrita da pele que insufla o sopro da expressão no esterno do espaço inaugural. letras pintadas com as tintas elementais: terra. água.fogo.ar. 4 palavras contiguando 4 manchas memoriadas no diafragma da sede. a de água & de ar. e de terra. i de início. o de fogo. chamas caligráficas ou cenas redondas, porque, heideggerianamente, o sentido se tece de labirínticos reenvios (ou seja: rios caligráficos). luís filipe pereira

domingo, 24 de fevereiro de 2008

A incerteza dos caminhos, com Paulo Nozolino (fragmento)

quando os passos voam os caminhos têm a curvatura das asas incertas. onde um pé para encaixar-se no vazio do molde que o insinua? os pés voaram para além das estreitas ruas e deles resta a nostalgia silente de uma raiz negra. a memória dos trilhos corrói meticulosamente a linha de fuga do presente. nos sapatos:nada. nos sapatos o destroço da partida para lá das varandas derradeiras. nos sapatos a lama dos vestígios como agulhas do abandono. que carne hiante vem calçá-los ainda? nenhum passo a estrugir, nenhum passo a bramir no interior das esquinas como retalhos de eternidade. adivinho os pés doridos na gótica rosácea do voo que delonga nas paralelas da névoa. na linha de terra aérea. é tão estreita a perspectiva de alcatrão.é tão nua a ausência exposta no interior dos sapatos anódinos como invertidos gansos de névoa. a intimidade expõe-se até aos ossos, até à cartilagem do tornozelo. até o tendão de aquiles se exibe para deslizar no certo vazio dos caminhos incertos. se alguém decidir voltar aos negros hortos da cidade, como aos poços sem fundo, terá um sapato à sua espera para embrulhar a verniz a sua queda? o bico do sapato rasga o cenário da branca memória até à mais fulminante degradação. cada sapato é a ferida que nos cabe? é a cicatriz que a incerteza dos caminhos nos carimbou? os sapatos são as ilhas que servem aos recifes de treva da nossa indesculpável incomunicabilidade. os caminhos caminham-nos. os caminhos levam-nos rumo às praças desertas da alma até aos cumes da nossa pele neles rebocada. até à insânia. até à medula da revoada das sombras selando a mudez da espera ao rés das trajectórias hesitantes. as que nos traçam como flechas do certo insurrecto. incerteza dos caminhos. sapatos suspensos: eis a prova (ou o negativo fotográfico que somos na sede táctil da urbano umbral da espera).......................luís filipe pereira

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

seguir com Antonio Segui

com antonio segui acotovela-me o frenético tango da multidão. como riscos de cobalto. as cidades tornam-se lagos aéreos de peixes venturosos. vaivém. sigo com segui e vejo as escamas a escorrer das axilas anónimas dos que correm para esquinas incertas. vou com eles e com a dança dos passos ondeantes à volta da extinta foz. nos gnomos das praças. dos charcos. dos alvéolos das ombreiras. perco-me como furtivo sopro entre comércios furtivos. de corpos. de águas. de duros vidros. onde a maria de buenos aires? no suor do vaivém são esponjosas as janelas nos olhares dos que descem pela alegria da passagem. nos lábios dos que sobem pelos cabelos da solidão ardendo como fósforo. lenta efervescência. os gomos da manhã. bueños dias. buenos aires. um enxame de corpos me embacia as margens. a rapariga que vende as maçãs da manhã. yo soy maria. que vende as coxas da noite aos marinheiros que nelas pernoitam. segui segui. até às migrações dos rostos que vão ruindo como pássaros. quase ninguém dentro da tarde da multidão pluridireccional. quase um sentido tropical nos passos em que só o chão é humano. passos. los mareados. segui segui e os passos supondo que os invento contra o paradoxo de zenão: o de ulisses e da tartaruga. vaivém. desdirecção de encontros nas avenidas dos acasos. segui.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

com o pé de A. Tàpies (fragmento)

com o pé de tàpiès caminho até ao mar descendo as esquinas das fábulas de gaudí. caminho por dentro das arestas de azulejos despintados. barcelona. azul.argamassa. a carne da tela faz-se às mãos silentes do pintor calígrafo de estremes manchas e poalhas. livres e intensas. cores das células. entre as células das cruzes lentas.com o pé de tàpies caminho um caminho de poros abertos sobre o mar das conchas desertas. das cores labiais. caminho na superfície aérea das violentas vogais. dos espelhos ocos. dos silêncios diagonais. com o pé de tàpies percorro a fortuna das vagas onde naufragam os passos. os sentidos.ora no mar branco das telas a pele estriada do mundo. barcelona de tinta fresca.uma varanda de gaudí onde um poema. com o pé descalço de Tàpies tropeço como se no gato irado que imperfeito se desenhasse até ao perfeito píncaro alado da sagrada família. tantas cores num breve enlace. tantos pássaros estultos como ferros.com o pé de tàpies acendo os muros nos barcos do branco das manhãs.barcelona.mancha................................

palavras ao rés da névoa que reconforta e indistingue

Olhando a janela rendilhada de bruma que se osmoseia com o azul do meu quarto. recordo, como pleura vítrea, o verso de A. Campos "o dia deu em chuvoso". Nada impede o labor aracnídeo do texto (vide Roland Barthes: O Prazer do Texto) de construir fendas e frestas, auras azuis em céus ficcionais e fluviais. nada impede um beijo de água. nada impede uma pedra vermelha a sorrir-me defronte, na humidade vegetal dos telhados. nada impede a metamorfose das antenas rasgando a névoa sólida de devirem remos, quilhas, mastros de um contra-luz de melancolia inspiradora.
luís filipe pereira

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

palavras estreantes

escrevo. abro a cena de fulgor de um espaço de partilha. sob o signo coralíneo de póeticos arquipélagos comunicantes. "estou vivo e escrevo sol" será ad infinitum o meu sangue prefacial. é também uma metonímica homenagem ao meu Poeta de sempre e para sempre: antónio ramos rosa. dia 16 de fevereiro, na livraria bulhosa, lisboa, foi reeditado pela editora Labirinto, a obra de António José Queirós, Memória do Silêncio. uma poesia depurada feita dos silêncios porosos que ateia a cumplicidade dos amantes. nessa mesma tarde, azul, de novalis sobre o jardim de entrecampos defronte, foi apresentado o nº 5 da colecção Afectos da Editora Labirinto iluminada pelo empenho ímpar da poeta maria do sameiro barroso: Afectos-amor. a páginas tantas, tem um poema (estreante também) meu: "chamar-te". a noite convoca-me, como linha de feiticeira de deleuze, para outros fascínios: filosofias: filosofemas. diria: filopoemas. a cena de fulgor como janela discreta fica, desde já aberta a todos os aprendizes e artífices do concerto das artes.
(luís filipe pereira)

"Estou vivo e escrevo sol"