quarta-feira, 15 de outubro de 2008

(imagem:Filipa Amaral "Black and orange composition 02 with cuts") A CASA DO POEMA


A CASA DO POEMA
Qual comboio rápido nos carris espaçados
Entre foragidas aves a perder de vista e negras linhas do adeus
A casa vazia nocturna e vasta morde a ínfima espiral da memória
Como se respondesse à deslocação do verbo sob as unhas
Seus olhos dão-me um remo os meus dão-lhe a estilística do mar
Se descer as escadas ouço as aves a beber a lua amarrada ao poço
E vejo o gelo a atear o que escrevo
E devora-me a casa com o seu peremptório frio de escombros

Igual ao comboio rápida a casa partiu para só regressar por alturas da solidão
- Há um mar a arder por trás do muro
Uma flor a desabrochar negra asa cântico de morte
Sonâmbula liturgia na boca da noite -

Se descer ao silêncio despedaçam-se as varandas que alçam os ossos e a voz
E vejo o tronco do ar e tranco na minha garganta a sua sombra esguia
O caminho até à janela é a distância de uma palavra sublime fruto submerso voo
Cada parede cada esquina cada palavra cega tudo apeadeiros em fuga
Tudo divisões remendadas rasando os confins da morte na falha adiantada do amor

luís filipe pereira

14 comentários:

Gisela Ramos Rosa disse...

Sublimes as suas palavras Filipe, as imagens,sons e emoções que evocam! "Há um mar a arder por trás do muro!" mas o caminho até à janela é a distância de uma palavra sublime...", Parabéns, Gisela Ramos Rosa

Mel de Carvalho disse...

... a casa do poema. um dia escrevi "o que é a casa? casa é o lugar onde a alma habita ...". e assim sinto.

em certos momentos também a casa do poema me "devora do seu peremptório frio de escombros" ... e, contudo a ela volto, como "Uma flor a desabrochar negra asa cântico de morte
Sonâmbula liturgia na boca da noite". eu ou a casa? a casa ou eu? ou ambas? não sei ...


Filipe, a sua escrita é visceral, orgânica, viva. é algo que se não esgota nas imagens iniciais, que remexe as emoções, as faz e as desfaz para fazer de novo. e isso é muito bom.

diga-me onde será o lançamento do seu livro. esteja certo de que tudo farei para estar presente.

abraço
Mel

MóniKa disse...

A casa da memória, a casa da solidão, a casa da palavra, a casa do amor que emerge do silêncio do poeta.

bruno sousa villar disse...

Fotogramas frios fios de lâmina
da guilhotina do corpo que grava inscreve nas paredes a carne da casa a falha adiantada do amor.


Bruno

mar disse...

eu não sei onde a casa é, se é pequena ou grande, se tem muitas divisões ou só um pequeno quarto. mas ainda assim é a casa e pelo respeito que lhe tenho grito por ela dentro, porque o poema é para ser gritado, este em tom de sussurro.
para parar o tempo, o velho à porta da passadeira sempre, o relógio na parede a comer as horas na casa do poema.

isto é lindo.
muito.


um beijo
deste
mar.

Anónimo disse...

Que poema! é sublime este poema. move-se ainda por toda a minha casa, viverá sempre em mim além da leitura. Morar nele, no seu poema, é o que podemos, esperar as novas divisões da sua maravilhosa, fascinante, voz poética, é o que nos pode aquecer além do frio que jamais a calará (frieza dos sem casa será sempre o ruído sem voz dos que, iludidos da ilusão, o tentam). Parabéns

S. Nunes

Anónimo disse...

Um Poema-desejo
(...)
por detrás da casa há um trilho
de seixos batidos pela chuva
cercados pela tua palavra
revolto pelos teus pés nus
de poeta
de caminhante
[de caminho]
onde o devir te abraça no monte
desígnio
de Sol que não se põe nem nasce
eterno ocaso de rasgado sorriso
miradouro
da aldeia que outrora
foi a casa
onde o Mar ainda arde por trás do muro.

Victor Banza

sALICA disse...

E tremem os frios dedos apoiando-se interrogando as paredes da casa noturna. Onde o fogo? É urgente alcançar o mar ardente, como se sarça ardente de Moisés fosse. É urgente que o olhar perdido na lua amarrada ao poço liberte a lua.

Extrordinariamente belo, como tudo o que escreve Filipe

Anónimo disse...

CAFÉ NO CHIADO

Alta, bela, esguia e elegante
Entra no Café da moda, hesitante
Onde um cheiro a café torrado a delicia
Enquanto tudo à roda a aborrecia.

Displicentemente atira o vison para a cadeira,
mil sacos cheios de nada, carteira de pele boa
cansada de gastar dinheiro à toa
que seu pai arrebanhou no cafezal.

Mãos bem tratadas, com unhas nacaradas
e anéis faiscantes. Perfume Boucheron.
Mulher entendiada, mulher sofisticada.
É fim de tarde no Chiado.
É tudo sempre igual, é tudo tão banal.

... ... ...

É fim de tarde no cafezal.
Com as mãos calejadas e as unhas encardidas
A negra exausta do dia a labutar
Displicentemente atira a capulana esfiapada
Para cima das sacas de sisal.

Seu filho suga o leite que lhe escorre
Dos seios já mirrados.
Olhando para seu filho embevecida
Aspira o cheiro do café torrado
No pilão o grão já está pisado.
Erguendo os olhos, sorri, agradecida.

Ao
Luis Filipe, com amizade
(maria Saturnino) Sani

luís filipe pereira disse...

Obrigado por tanta generosidade e afecto, linhas hermenêuticas e tanto alento, convosco estou mais vivo e encontro no meu peito, no meu pulso, mais e mais sol. Obrigado Gisela Ramos Rosa, pela ternura verdadeira pela emoção poética, obrigado poeta Amélia de Carvalho, pelo modo fundo e limpo como vê a minha escrita e o que ela, humílima, dá a ver; obrigado artista, escritora, coração tão grande e pleno de palavras criativas: Mónica Cunha; obrigado poeta/escritor Bruno Sousa Vilar; Obrigado pela análise exímia escritora Margarete Silva (um beijo para ti Mar); obrigado pela cumplicidade amiga S. Nunes; Obrigado pelo poema caro escritor Victor Banza, obrigado pela amizade, delicadeza, sincera ternura Maria Saturnino cuja escrita admiro e me leva aos cheiros de África; obrigado Querida Professora, Amiga Maior Professora Doutora Isabel Clemente (salica). Obrigado a todos, os intertextualizantes que me ajudam a arrastar o sol até aos confins da minha vida.
luís filipe pereira

Anónimo disse...

Um Poema Maior, Parbéns Luis Filipe Pereira, à memória, na senda da intertualidade, surge-me de Luís Miguel Nava (in A Inércia da Deserção & etc, 1981): "...entrar num quarto onde não há senão um pequeno espelho e uma cadeira do outro lado, o ruído das vagas desertando, espelhos desertando na peugada das vagas, onde não há senão a inércia da deserção."
Ana M. A. Martins

Anónimo disse...

Na Casa Do Poema, "- Há um mar a arder". Um mar de emoções nos versos, ideias. Imagens que se sentem na reclamação de uma casa cheia. Para isso, basta caminhar até à janela - a distância de uma palavra sublime - e levantar voo ao silêncio.

Afinal, não é uma casa vazia e escura. É o "adiantar do amor", porque, o poeta mora lá.
Sublime poema!

DiteApolinário

Cristina disse...

Parabéns pelo poema e inspiração.Este quadro de Filipa Amaral está incluído na exposição on-line do portal da Bestartis em www.bestartis.com.Gostava de fazer ligação com o seu poema dedicatório se lhe parecer bem.
Mais uma vez parabéns! Pode responder para editorial@bestartis.com. Obrigada.
Um abraço.
Cristinapc

Anónimo disse...

Está verdadeiramente em sua Casa: na Casa da poesia. Que poema espantoso!
N. Eiras