sexta-feira, 4 de abril de 2008

"Para crescer, o corpo tem de ser uma mala de viagem" (in Capricho 43 de Carlos Vaz)


o título está inserto no fantástico - criadoramente llansoliano - romance capricho 43 de carlos vaz. o corpo cresce fazendo e desfazendo os instrumentos que animam a demanda de linhas de errância. cresce com os músculos textuais que o vão robustecendo contra a impostura do medo e a tirania dos príncipes imobilizados sob o fardo cego do poder. os príncipes não viajam. a mala está sempre meio cheia meio vazia dos racionais estratagemas e ardis insidiosos que castram e desmantelam o sonho. os príncipes não crescem porque não têm medo ocupados que sempre estão em provocarem o medo para prepetuarem as águas separadas dos que detêm as chaves artificiais do texto em relação aos que ousam a viagem com a chave cega que franqueia os abismos e a insânia e não cessam de crescer. não cessam de arrumar a mala da trajectória sem meta definida. não cessam de procurar a parte louca do mundo que é a restante metade que dá intensidade textual ao crescimento. crescem porque acreditam que as histórias de contar da Mãe são o forro figural da mala de viagem. crescem porque aprendem a vencer o medo e não temem o incessante esvaziamento da mala para lhes ser mais leve a viagem. e não temem os monstros que a razão goyesca sonha. e não temem vagabundar à deriva noLetes. e agarram-se aos lençóis do afecto para a navegação do tanque de cimento que há-de velejar nas águas do texto que arquitectam as ilhas. as singularidades de sermos no espaço-tempo intersticial das metades e dos hiatos. ilhas de temor. ilhas deslumbradas. ilhas de lava textual. ilhas de memória. de terra firme. o homem-que-separa-as-águas há-de osmosear a gravidade de newton e a contragravidade da arte. separa as águas para unir no caudal da monstruosidade figural o leitor e o escritor. o legente e o escrevente. ilhas encontradas sob a protecção da corda da Mãe comunial. que estende as roupas textuais de ambos para que cresçam os corpos sempre que partem protegidos pelos nós da afectividade. levar este livro na mala de viagem é lavar a roupa suja e gasta do intranscendente quotidiano. é levar nos dedos. na pele. no córtex o prisma das cores refractando-se como corda estendida sobre o abismo do texto. é levar o tanque de cimento como o barco que nos cabe no devir da infantilidade rumo à maturidade e vice-versa como unidas metades ao longo da corda que vai de um lado ao outro. de ilha em ilha. de novelo em novelo.de mala em mala. de viagem em viagem. eis o crescer do corpo.

1 comentário:

Carlos disse...

Caro Luís
como não tenho ainda o seu email, respondo através deste comentário. Cheguei de viagem, vi e li agora o seu texto encantador, digno de me fazer corar... de facto uma excelente leitura, é agradável verificar que também gostou de navegar no pesado tanque de cimento com as figuras...
Só uma nota, não é Capítulo 43 mas Capricho 43... percebi que foi gralha...
gostaria de trocar mais ideias consigo e agradecer-lhe a notícia que o João me deu na sexta a noite, de que me dará a honra de o ter ao meu lado na apresentação do nosso Capricho.
Agradecia também o seu email para poder alongar-me mais e estreitar a amizade literária.
Mais uma vez muito obrigado
Carlos Vaz