quarta-feira, 28 de abril de 2010

DAQUI EM DIANTE

(Imagem: Escultura de Baltazar Torres, Wave/2009)


para Fernanda Apolinário





É submersa em meu sangue

que mora a memória

dum mundo


na sua força de epigrama


na sua fala de esporângio


dum mundo


à beira da boca


como angular


asa por abrir


É rente ao remo


que se afunda


qual onda sob os ombros


da medida das manhãs


o ritmo das dispersas


varandas de sal


como a verdade espessa



em eólicos dedos



É na florida fronte


em padrão coeso

qual cálamo rendado de cais


que nos confins de pedras


de pássaros


afora de todo o espaço


se ergue o vento


como efémera estaca


do sonho


sem medida sacudido


quase veia flectida


sobre os filetes do verão


quase queda


quase dança

dum mundo nu de mundo


já dobra de nuvem

de nome

na janela


a rebrilhar


ribeiras vermelhas

brancas


no estanho desolado

baço

exogenamente riscado


do esquecimento.



luís filipe pereira

58 comentários:

Anónimo disse...

Caro Poeta: uma obra de arte! tocante, arrebata-nos a cada verso serpenteando nos ângulos de uma dança em que a poesia volteia, libérrima, fulgorante. Notável.

M. R. Pedreira

Anónimo disse...

Como esperei - e espero sempre . o Ereignis que é um poema seu, veio pela noite e nela fica a murmurar numa dança incrível que é "veia flectida" para o estio que da catábase erige o acme, que da queda faz a subida à fronte do ser: ser de dança. maravilhoso!
T. Cadete

Anónimo disse...

Surprendente e visceral como sempre, eólico vibrante, argonauta das metáforas verdadeiras,aqui o desvio de A. Caeiro, assim a sua poética, exímia "varanda de sal".

Patrícia S. silva

Anónimo disse...

Na boca sobra o gosto a sal, a promessa da dança como "veia flectida" para "ribeiras vermelhas/brancas", matrizes "dum mundo nu de mundo" (que belo Filipe!) Obrigado por este momento.
A. queirós

Anónimo disse...

Cada metáfora, cada imagem, cada passo de dança que a linguagem desenha é ocasião para desembaciar o banal e acender nessas "ribeiras vermelhas" a alegria da memória.

J. Tiago

Mar Arável disse...

Um belo ciclo de marés

com palavras ateadas

nos mastros da poesia

Bem-vindo ao meu mar

Anónimo disse...

Entre a memória e o esquecimento o poema abre um tempo, um compasso de dança, tempo desmedido como o sonho.
Parabéns


M.Vaz

Djabal disse...

As imagens são insólitas, belas e extravagantes. Caminhamos de uma até a outra, informadas pelo sentido. Entretanto, a asa por abrir, em eólicos dedos, se ergue ao vento como efêmera estaca. Dedos e estaca sólidos, quebrados pelos ventos, fugaz pelo efêmero. Sólido e sutil. Forte e fraco. Sensível e inconsútil.
A criatividade se fez poesia. Obrigado e parabéns.

Tere Tavares disse...

Não há equações a determinar, no subjetivo, inóspito quanto inesquecível, que re-trata um organismo vivo, dançante, em prelúdios diáfanos - que nos afaga.
Feito onda, feito mar.

Abraço

luís filipe pereira disse...

A todos os vossos comentários, que tanto têm engrandecido os sentidos deste poema, meu muito obrigado."informados pelo sentido"(obrigado estimado escritor Djabal cuja escrita muito aprecio)assim sinto, assim me emocionam e alentam os vossos comentários.

filipe

Anónimo disse...

"cenas de fulgor" (LLANSOL), assim os versos de um Poeta sublime.

J. Amaral

Anónimo disse...

Dança no espaço do poema, ou o modo da palavra poética erigir as estacas do tempo: excepcional, este poema, a que voltarei, sempre.

T. Cadete

Anónimo disse...

Que "mundo nu de mundo" transporta este poema!Mundo sem medida se é sonho, se é vividez integral "afora do espaço" da duração que vai da memória ao esquecimento. No intervalo ficam os versos a "rebrilhar" a reflorir, a ser memória de novo (na janela) a ser esquecimento (no vidro "riscado", pois o poema é traço, dançante traço.

Candeias

Anónimo disse...

Homem engessado é Homem.
E embora cansado e desgostoso, tal
"quase veia flectida, quase queda, quase dança" ele caminha, carregando.

"Daqui Em Diante"
e a nu.

Excelente poema e leitura.

A minha gratidão.Sempre.
F.Apolinário

luís filipe pereira disse...

DE novo, como se a primeira vez sempre, meu obrigado pelos ecos, leituras, sentidos.............

Fernanda Apolinário, a quem dedico, especialmente, este poema: porque, sim, daqui em diante dançará: a música, o rebrilho, o tempo de continuarmos a amizade, sempre..........................

meu obrigado,
filipe

Anónimo disse...

Poema (magnífico) "exogenamente riscado" ou a interioridade toda debruçada, extravasada na exterioridade plena, tensa, intensa, que os versos convocam.

G. Morais

betina moraes disse...

com o vigor de sempre, você se mantém no mais alto nível de nossa língua, fazendo das metáforas as tais asas rasgando o vento-verbo em direção aos sentidos!

bravos! belíssimo!

grande abraço, poeta!

Anónimo disse...

"com a força de epigrama", assim esta poesia que levanta mundos, altíssimos.
soberbo.

M. Buescu

Anónimo disse...

Com o apelo das vagas, com o vigor do ar/do vento, a construção poética, inteira, vai à raiz, ao elemental, ao cerne do que nos toca, por fruiição literária, por introjeccão vivencial.
Parabéns.

C. Monteiro

luís filipe pereira disse...

A todos meu obrigado: co-move-me a generosidade dos vossos enobrecedores comentários, o modo como com o poema e a partir dele também o fazem e espraiam para orlas de sentido tão enriquecedores. Cara Betina, obrigado por também, com sua poética, rasgar com a palavra o "vento-verbo".
grato,
filipe

Anónimo disse...

Extraordinário, caro Luís Filipe Pereira, "meu Poeta", como sempre nos transporta para a margem do imponderável, para os limbos, para os elementos-entre pelos oxímoros reabilitados: memória/esquecimento;
sob/sobre; água/ar, tenacidade/fragilidade; música/silêncio, queda/remo e, o modo, afinal, como tudo fica rente à pele, à emoção de o lermos.

P. Coutinho M.

Lídia Borges disse...

Uma poética que cativa pela forma como somos surpreendidos a cada verso.

L.B.

Anónimo disse...

inesquecível este poema, esta Poesia.

Parabéns

Célia Prata

Virgínia do Carmo disse...

Belíssimas palavras...
- Talvez porque viajam através do sangue... -

Um abraço

Anónimo disse...

"como a verdade espessa/ em eólicos dedos" 2 versos notáveis que abrem "varandas de sal" em que, no ritmo de sístole/diástole do poema, se entrecruzem a densidade e a rarefacção, a espessura e a subtileza.

Fred. Costa

manuela baptista disse...

quase queda
quase dança!

este poema

muito bonito!

um abraço

Manuela

Anónimo disse...

"quase vei flectida/ sobre os estiletes do verão" assim o poema pleno de imagens, de elípticos apelos que se abrem e surgem "exogenamente riscados" na trajectória ondeante, dançante do (excelente) Poema.

J. Bettencourt

Carlos Ricardo Soares disse...

Caro Filipe,

todo o poema me surpreende como "os confins" das coisas e das coisas que voam, como "um vento que se ergue" "afora de todo o espaço" e me faz pensar que Aristóteles escreveu "Ser feliz é uma actividade que requer toda uma vida e não pode existir em menos tempo" - Aristóteles, Ética a Nicómaco; mas mais ainda me faz pensar no que diria ele da verdade.

Anónimo disse...

"Daqui em diante" segue este magnífico Poema até aos confins do mundo: "dum mundo nu de mundo".
Sublime!

Mendes Moreira

luís filipe pereira disse...

A todos muito obrigado por permitirem, com vossos ecos, levar adiante os sentidos deste Poema.
:::::::::::::
Caro poeta Carlos Soares, cuja poesia genuinamente aprecio, pela sua visita a este espaço intertextuante e eis-me muito grato pelo seu douto feedback ao poema.
filipe

Anónimo disse...

"ribeiras vermelhas/ribeiras brancas", estuários de queda e de encantamento poético por via do par dançante da memória e do esquecimento para que se dê o advento do tempo poético, estival, orgânico, sanguíneo.
re-brilante a sua Poesia.

Marie -J. Lopes

Anónimo disse...

"exogenamente riscado" assim o poema com seu lastro em nós, com seu rastro em nós, "quase queda/quase dança", integralmente Grande Poesia.


L. Antunes

Anónimo disse...

No vidro da janela, no "estanho desolado" da moldura o que resta afinal, "exogenamente riscado" é o esquecimento, pois a paisagem (o fora de que o poema se alimenta) é o que fica guardado, in memoria, no sangue - na mobilidade, na dança - da palavra poética: notável.
S. Lopes Rodrigues

Anónimo disse...

"É rente ao remo" que zarpa o poema, envolvendo-nos com o ritmo das imagens, os volteios na língua que, notavelmente, o Luís Filipe Pereira, recria, abrindo-lhe mundos, ilhas de sonoridades fabulosas.

T. Peixoto

luís filipe pereira disse...

DE novo,
para dizer-vos obrigado,
para dizer-vos como dos
vossos ecos é também o
poema
re
feito.

grato,

filipe

Licínia Quitério disse...

Gotei de o ler. E gosto da escultura.

Um abraço.

Anónimo disse...

Não sei que dizer, Filipe, senão que o seu mundo nu de mundo, o seu universo poético, em que explodem de uma primieva unidade mar, cais, pdras, pássaros, o seu mundo/poema em que o quase se substitui a uma essência que reifica, que reduz, esse mundo que é o da sua inigualável poesia,
nesse mundo, mergulho.
Nele, nesse mundo/poema, me restarei até que um outro poema/mundo me chama a um novo encantamento Salica

Anónimo disse...

"efémera estaca do sonho" verso extraordinário que é, de facto, epigramático da poesia extraordinária de Luís Filipe Pereira.
F. Guerra

Anónimo disse...

Como onda, como dança, com a leveza da nuvem e a pesadez do sangue, como ave, como vento, com o ritmo distributivo da palavra e a musicalidade rebrilhando sílaba a sílaba: um poema belíssimo.

J.M. Freire

luís filipe pereira disse...

A todos,
generosos intertextuantes,
amigos e cúmplices desta "Causa Amante" (Maria Gabriela Llansol), a poesia,
meu co-movido Obrigado.
...................
Professora Doutora Isabel Clemente, AMIGA MAIOR: de alfa a ómega nesse que, deliciosamente, chama "poema/mundo", em seu Dentro,inscreve-se a marca de minha Amizade inteira.
..............................
grato,
filipe

Memória de Elefante disse...

"afora de todo o espaço
se ergue o vento
como efémera estaca
do sonho
sem medida sacudido
quase veia flectida
sobre os filetes do verão"


Destaco estes versos que achei extraordinária a imagem!

Um abraço

Anónimo disse...

"dum mundo à beira da boca", dum mundo que se faz poesia, dizibilidade que convoca todos os sentidos e o imaginário sensível, o imagináro rente,
com admiração,

M. Tamen

Anónimo disse...

memória ou esquecimento? libertação para "um mundo nu de mundo" sem memória e por isso sem esquecimento. rui

Anónimo disse...

"em padrão coeso", assim este poema coma as palavras mais nítidas e as imagens mais loquazes, pleno de vigor, de intensidade: deslumbrante.

M. Eduarda Azevedo

Brancamar disse...

Daqui em diante, todo o mundo emerge em cada verso até ao final do poema.

Deixo beijinhos.
Branca

Anónimo disse...

Dança/onda entre a medida (da janela, do esquecimento, das varandas de sal...) e a desmedida (do mundo nu de mundo, da memória,das florações, dos mares prometidos "rente ao remo") abraça-nos o poema e emociona-nos.

Leonor Costa M.

Anónimo disse...

Caro Professor
Meu muito querido Amigo,

È submersa em meu sangue
Que mora a memória
Dum mundo
Na sua força de epigrama
Da sua fala de esporângio
Dum mundo à beira da boca
Como angular
Asa por abrir.
Mais uma vez a forma brilhante como esgrime as palavras dando-lhes novas entoações, novos percursos.
Li há pouco um livro que recomendo “DANUBIO de Cláudio Magris”.
“Recorda-nos que cada um de nós,
Graças à trama múltipla e oculta
A que deve a sua existência
……………..
Mas esta tarde,
ao longo do rio que de Verão,
dizem-nos, desaparece, o passo
junto ao meu é insofismável
como o curso de água,
e na sua onda, seguindo
a curva das margens, talvez
eu saiba quem sou.”


Mais uma vez lhe escrevo sobre um rio.
Sendo a vida um rio - que percorre um percurso da nascente à foz - é difícil não o associarmos aos seus poemas.
É, nessa memória dum mundo, como angular asa por abrir, que nos encontramos.
Obrigada, Luís Filipe, por mais esta paleta de beleza.
Sani

luís filipe pereira disse...

Caros amigos, leitores, intertextuantes, visitantes deste blog em que "estou vivo e escrevo sol" (A. R. Rosa),
com a emoção inteira agradeço-vos as pistas de leitura, os links que abrem no poema e que enobrecem o que num v. do poema aludo como "padrão coeso", "daqui em diante" deve-vos, em muito, essa coesão amplificativa.
.........................
Ao Rui, agradeço a forma "militante" (o sentido é o de M.-Ponty) de sempre vir ler e comentar, desde a primeira hora deste blog, os meus textos.
.............................
À escritora Maria Saturnino, Querida Amiga Sani, a emoção com que me lê, a generosidade com que comenta os textos e tanto os enriquece por via das intertextualidades, riquíssimas, que sempre entabula e inscreve na gentileza e sapiência hermenêutica dos seus ecos
......................
a todos: igualmente
grato,
filipe

Anónimo disse...

Belíssima esta construção poética, feita de rasgo e queda,
de verticalidade e pontes,
de dialécticas, ritmos e antíteses,
do trabalho instaurados da sempre rediviva "Metáfora Viva" (Ricoeur),
Parabéns e obrigado pelo tanto que partilha,

A. Covas

Anónimo disse...

"Daqui em diante" aguardarei as suas novas, belíssimas, composições poéticas...

M.Helena Pinheiro

Anónimo disse...

não resisti em voltar,
em reafirmar como me tocou
este Poema,
a forma como as palavras se enrolam
como corpos dançantes, como ondas que se enrolam e espraiam numa imensidão de sentidos,
obrigado Filipe
Tig. peixoto

Luzzsh disse...

Belo. Belíssimo...

Beijos. L.

Anónimo disse...

Magnífica a profundidade e magia imagética-metafórica que atravessa todo o poema marcando-lhe um ritmo, como se desde o primeiro verso, se anunciasse o fulgor de "daqui em diante",
minha admiração
J. Morais

luís filipe pereira disse...

A Todos, caros amigos, intertextuantes, visitantes desta casa solar sobre nocturnos arcabouços,
grato pela vossa gnerosidade e, sobremaneira, pela fecúndia dos vossos comentários.

filipe

Anónimo disse...

Abre-nos o poema um mundo "na sua fala de esporângio": mundo de floração, de germinação, mundo-movimento que nos leva adiante, que o poema leva adiante, tal como devemos levar o mundo, primeiro desnudando-o das suas amarras e do seu confinamento.
Há Poemas Assim!

R. Martelo

Mel de Carvalho disse...

Sempre portentosos os seus poemas, estimado Luís Filipe.
Fica um abraço fraterno e amigo extensivo à nossa comum amiga Dite /Fernanda Apolinário.

Mel

Anónimo disse...

A Poesia pode ser - este poema é disso atestação plena - "um mundo /à beira da boca",

daqui em diante, voltarei para ler os seus poemas

H. M. Buescu

luís filipe pereira disse...

A todos meu imenso obrigado pela forma generosa
calorosa
enriquecedora
como visitaram, leram, co-responderam a este poema.
Obrigado à estimada escritora Mel de Carvalho.