
para Fernanda Apolinário
É submersa em meu sangue
que mora a memória
dum mundo
que mora a memória
dum mundo
na sua força de epigrama
na sua fala de esporângio
dum mundo
à beira da boca
como angular
asa por abrir
É rente ao remo
que se afunda
qual onda sob os ombros
da medida das manhãs
o ritmo das dispersas
varandas de sal
como a verdade espessa
em eólicos dedos
É na florida fronte
em padrão coeso
qual cálamo rendado de cais
que nos confins de pedras
de pássaros
afora de todo o espaço
se ergue o vento
como efémera estaca
do sonho
sem medida sacudido
quase veia flectida
sobre os filetes do verão
quase queda
quase dança
dum mundo nu de mundo
já dobra de nuvem
de nome
na janela
a rebrilhar
ribeiras vermelhas
brancas
no estanho desolado
baço
exogenamente riscado
do esquecimento.
luís filipe pereira
58 comentários:
Caro Poeta: uma obra de arte! tocante, arrebata-nos a cada verso serpenteando nos ângulos de uma dança em que a poesia volteia, libérrima, fulgorante. Notável.
M. R. Pedreira
Como esperei - e espero sempre . o Ereignis que é um poema seu, veio pela noite e nela fica a murmurar numa dança incrível que é "veia flectida" para o estio que da catábase erige o acme, que da queda faz a subida à fronte do ser: ser de dança. maravilhoso!
T. Cadete
Surprendente e visceral como sempre, eólico vibrante, argonauta das metáforas verdadeiras,aqui o desvio de A. Caeiro, assim a sua poética, exímia "varanda de sal".
Patrícia S. silva
Na boca sobra o gosto a sal, a promessa da dança como "veia flectida" para "ribeiras vermelhas/brancas", matrizes "dum mundo nu de mundo" (que belo Filipe!) Obrigado por este momento.
A. queirós
Cada metáfora, cada imagem, cada passo de dança que a linguagem desenha é ocasião para desembaciar o banal e acender nessas "ribeiras vermelhas" a alegria da memória.
J. Tiago
Um belo ciclo de marés
com palavras ateadas
nos mastros da poesia
Bem-vindo ao meu mar
Entre a memória e o esquecimento o poema abre um tempo, um compasso de dança, tempo desmedido como o sonho.
Parabéns
M.Vaz
As imagens são insólitas, belas e extravagantes. Caminhamos de uma até a outra, informadas pelo sentido. Entretanto, a asa por abrir, em eólicos dedos, se ergue ao vento como efêmera estaca. Dedos e estaca sólidos, quebrados pelos ventos, fugaz pelo efêmero. Sólido e sutil. Forte e fraco. Sensível e inconsútil.
A criatividade se fez poesia. Obrigado e parabéns.
Não há equações a determinar, no subjetivo, inóspito quanto inesquecível, que re-trata um organismo vivo, dançante, em prelúdios diáfanos - que nos afaga.
Feito onda, feito mar.
Abraço
A todos os vossos comentários, que tanto têm engrandecido os sentidos deste poema, meu muito obrigado."informados pelo sentido"(obrigado estimado escritor Djabal cuja escrita muito aprecio)assim sinto, assim me emocionam e alentam os vossos comentários.
filipe
"cenas de fulgor" (LLANSOL), assim os versos de um Poeta sublime.
J. Amaral
Dança no espaço do poema, ou o modo da palavra poética erigir as estacas do tempo: excepcional, este poema, a que voltarei, sempre.
T. Cadete
Que "mundo nu de mundo" transporta este poema!Mundo sem medida se é sonho, se é vividez integral "afora do espaço" da duração que vai da memória ao esquecimento. No intervalo ficam os versos a "rebrilhar" a reflorir, a ser memória de novo (na janela) a ser esquecimento (no vidro "riscado", pois o poema é traço, dançante traço.
Candeias
Homem engessado é Homem.
E embora cansado e desgostoso, tal
"quase veia flectida, quase queda, quase dança" ele caminha, carregando.
"Daqui Em Diante"
e a nu.
Excelente poema e leitura.
A minha gratidão.Sempre.
F.Apolinário
DE novo, como se a primeira vez sempre, meu obrigado pelos ecos, leituras, sentidos.............
Fernanda Apolinário, a quem dedico, especialmente, este poema: porque, sim, daqui em diante dançará: a música, o rebrilho, o tempo de continuarmos a amizade, sempre..........................
meu obrigado,
filipe
Poema (magnífico) "exogenamente riscado" ou a interioridade toda debruçada, extravasada na exterioridade plena, tensa, intensa, que os versos convocam.
G. Morais
com o vigor de sempre, você se mantém no mais alto nível de nossa língua, fazendo das metáforas as tais asas rasgando o vento-verbo em direção aos sentidos!
bravos! belíssimo!
grande abraço, poeta!
"com a força de epigrama", assim esta poesia que levanta mundos, altíssimos.
soberbo.
M. Buescu
Com o apelo das vagas, com o vigor do ar/do vento, a construção poética, inteira, vai à raiz, ao elemental, ao cerne do que nos toca, por fruiição literária, por introjeccão vivencial.
Parabéns.
C. Monteiro
A todos meu obrigado: co-move-me a generosidade dos vossos enobrecedores comentários, o modo como com o poema e a partir dele também o fazem e espraiam para orlas de sentido tão enriquecedores. Cara Betina, obrigado por também, com sua poética, rasgar com a palavra o "vento-verbo".
grato,
filipe
Extraordinário, caro Luís Filipe Pereira, "meu Poeta", como sempre nos transporta para a margem do imponderável, para os limbos, para os elementos-entre pelos oxímoros reabilitados: memória/esquecimento;
sob/sobre; água/ar, tenacidade/fragilidade; música/silêncio, queda/remo e, o modo, afinal, como tudo fica rente à pele, à emoção de o lermos.
P. Coutinho M.
Uma poética que cativa pela forma como somos surpreendidos a cada verso.
L.B.
inesquecível este poema, esta Poesia.
Parabéns
Célia Prata
Belíssimas palavras...
- Talvez porque viajam através do sangue... -
Um abraço
"como a verdade espessa/ em eólicos dedos" 2 versos notáveis que abrem "varandas de sal" em que, no ritmo de sístole/diástole do poema, se entrecruzem a densidade e a rarefacção, a espessura e a subtileza.
Fred. Costa
quase queda
quase dança!
este poema
muito bonito!
um abraço
Manuela
"quase vei flectida/ sobre os estiletes do verão" assim o poema pleno de imagens, de elípticos apelos que se abrem e surgem "exogenamente riscados" na trajectória ondeante, dançante do (excelente) Poema.
J. Bettencourt
Caro Filipe,
todo o poema me surpreende como "os confins" das coisas e das coisas que voam, como "um vento que se ergue" "afora de todo o espaço" e me faz pensar que Aristóteles escreveu "Ser feliz é uma actividade que requer toda uma vida e não pode existir em menos tempo" - Aristóteles, Ética a Nicómaco; mas mais ainda me faz pensar no que diria ele da verdade.
"Daqui em diante" segue este magnífico Poema até aos confins do mundo: "dum mundo nu de mundo".
Sublime!
Mendes Moreira
A todos muito obrigado por permitirem, com vossos ecos, levar adiante os sentidos deste Poema.
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Caro poeta Carlos Soares, cuja poesia genuinamente aprecio, pela sua visita a este espaço intertextuante e eis-me muito grato pelo seu douto feedback ao poema.
filipe
"ribeiras vermelhas/ribeiras brancas", estuários de queda e de encantamento poético por via do par dançante da memória e do esquecimento para que se dê o advento do tempo poético, estival, orgânico, sanguíneo.
re-brilante a sua Poesia.
Marie -J. Lopes
"exogenamente riscado" assim o poema com seu lastro em nós, com seu rastro em nós, "quase queda/quase dança", integralmente Grande Poesia.
L. Antunes
No vidro da janela, no "estanho desolado" da moldura o que resta afinal, "exogenamente riscado" é o esquecimento, pois a paisagem (o fora de que o poema se alimenta) é o que fica guardado, in memoria, no sangue - na mobilidade, na dança - da palavra poética: notável.
S. Lopes Rodrigues
"É rente ao remo" que zarpa o poema, envolvendo-nos com o ritmo das imagens, os volteios na língua que, notavelmente, o Luís Filipe Pereira, recria, abrindo-lhe mundos, ilhas de sonoridades fabulosas.
T. Peixoto
DE novo,
para dizer-vos obrigado,
para dizer-vos como dos
vossos ecos é também o
poema
re
feito.
grato,
filipe
Gotei de o ler. E gosto da escultura.
Um abraço.
Não sei que dizer, Filipe, senão que o seu mundo nu de mundo, o seu universo poético, em que explodem de uma primieva unidade mar, cais, pdras, pássaros, o seu mundo/poema em que o quase se substitui a uma essência que reifica, que reduz, esse mundo que é o da sua inigualável poesia,
nesse mundo, mergulho.
Nele, nesse mundo/poema, me restarei até que um outro poema/mundo me chama a um novo encantamento Salica
"efémera estaca do sonho" verso extraordinário que é, de facto, epigramático da poesia extraordinária de Luís Filipe Pereira.
F. Guerra
Como onda, como dança, com a leveza da nuvem e a pesadez do sangue, como ave, como vento, com o ritmo distributivo da palavra e a musicalidade rebrilhando sílaba a sílaba: um poema belíssimo.
J.M. Freire
A todos,
generosos intertextuantes,
amigos e cúmplices desta "Causa Amante" (Maria Gabriela Llansol), a poesia,
meu co-movido Obrigado.
...................
Professora Doutora Isabel Clemente, AMIGA MAIOR: de alfa a ómega nesse que, deliciosamente, chama "poema/mundo", em seu Dentro,inscreve-se a marca de minha Amizade inteira.
..............................
grato,
filipe
"afora de todo o espaço
se ergue o vento
como efémera estaca
do sonho
sem medida sacudido
quase veia flectida
sobre os filetes do verão"
Destaco estes versos que achei extraordinária a imagem!
Um abraço
"dum mundo à beira da boca", dum mundo que se faz poesia, dizibilidade que convoca todos os sentidos e o imaginário sensível, o imagináro rente,
com admiração,
M. Tamen
memória ou esquecimento? libertação para "um mundo nu de mundo" sem memória e por isso sem esquecimento. rui
"em padrão coeso", assim este poema coma as palavras mais nítidas e as imagens mais loquazes, pleno de vigor, de intensidade: deslumbrante.
M. Eduarda Azevedo
Daqui em diante, todo o mundo emerge em cada verso até ao final do poema.
Deixo beijinhos.
Branca
Dança/onda entre a medida (da janela, do esquecimento, das varandas de sal...) e a desmedida (do mundo nu de mundo, da memória,das florações, dos mares prometidos "rente ao remo") abraça-nos o poema e emociona-nos.
Leonor Costa M.
Caro Professor
Meu muito querido Amigo,
È submersa em meu sangue
Que mora a memória
Dum mundo
Na sua força de epigrama
Da sua fala de esporângio
Dum mundo à beira da boca
Como angular
Asa por abrir.
Mais uma vez a forma brilhante como esgrime as palavras dando-lhes novas entoações, novos percursos.
Li há pouco um livro que recomendo “DANUBIO de Cláudio Magris”.
“Recorda-nos que cada um de nós,
Graças à trama múltipla e oculta
A que deve a sua existência
……………..
Mas esta tarde,
ao longo do rio que de Verão,
dizem-nos, desaparece, o passo
junto ao meu é insofismável
como o curso de água,
e na sua onda, seguindo
a curva das margens, talvez
eu saiba quem sou.”
Mais uma vez lhe escrevo sobre um rio.
Sendo a vida um rio - que percorre um percurso da nascente à foz - é difícil não o associarmos aos seus poemas.
É, nessa memória dum mundo, como angular asa por abrir, que nos encontramos.
Obrigada, Luís Filipe, por mais esta paleta de beleza.
Sani
Caros amigos, leitores, intertextuantes, visitantes deste blog em que "estou vivo e escrevo sol" (A. R. Rosa),
com a emoção inteira agradeço-vos as pistas de leitura, os links que abrem no poema e que enobrecem o que num v. do poema aludo como "padrão coeso", "daqui em diante" deve-vos, em muito, essa coesão amplificativa.
.........................
Ao Rui, agradeço a forma "militante" (o sentido é o de M.-Ponty) de sempre vir ler e comentar, desde a primeira hora deste blog, os meus textos.
.............................
À escritora Maria Saturnino, Querida Amiga Sani, a emoção com que me lê, a generosidade com que comenta os textos e tanto os enriquece por via das intertextualidades, riquíssimas, que sempre entabula e inscreve na gentileza e sapiência hermenêutica dos seus ecos
......................
a todos: igualmente
grato,
filipe
Belíssima esta construção poética, feita de rasgo e queda,
de verticalidade e pontes,
de dialécticas, ritmos e antíteses,
do trabalho instaurados da sempre rediviva "Metáfora Viva" (Ricoeur),
Parabéns e obrigado pelo tanto que partilha,
A. Covas
"Daqui em diante" aguardarei as suas novas, belíssimas, composições poéticas...
M.Helena Pinheiro
não resisti em voltar,
em reafirmar como me tocou
este Poema,
a forma como as palavras se enrolam
como corpos dançantes, como ondas que se enrolam e espraiam numa imensidão de sentidos,
obrigado Filipe
Tig. peixoto
Belo. Belíssimo...
Beijos. L.
Magnífica a profundidade e magia imagética-metafórica que atravessa todo o poema marcando-lhe um ritmo, como se desde o primeiro verso, se anunciasse o fulgor de "daqui em diante",
minha admiração
J. Morais
A Todos, caros amigos, intertextuantes, visitantes desta casa solar sobre nocturnos arcabouços,
grato pela vossa gnerosidade e, sobremaneira, pela fecúndia dos vossos comentários.
filipe
Abre-nos o poema um mundo "na sua fala de esporângio": mundo de floração, de germinação, mundo-movimento que nos leva adiante, que o poema leva adiante, tal como devemos levar o mundo, primeiro desnudando-o das suas amarras e do seu confinamento.
Há Poemas Assim!
R. Martelo
Sempre portentosos os seus poemas, estimado Luís Filipe.
Fica um abraço fraterno e amigo extensivo à nossa comum amiga Dite /Fernanda Apolinário.
Mel
A Poesia pode ser - este poema é disso atestação plena - "um mundo /à beira da boca",
daqui em diante, voltarei para ler os seus poemas
H. M. Buescu
A todos meu imenso obrigado pela forma generosa
calorosa
enriquecedora
como visitaram, leram, co-responderam a este poema.
Obrigado à estimada escritora Mel de Carvalho.
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