
sei que persiste a mudez igual a um país de pedra
sei que a solidão é feita de folha persistente
mas invento extravagantes estacas
a fim de amparar a água fala a fala
sei que os muros visitam a viuvez das madrugadas
sei que espadas iluminam a extensa cegueira do meu corpo
sei que são de sangue as grades como um grito de socorro
mas construo hieróglifos de claridade
para nomear as hélices de ubíquos navios
sei que soam estrondos de balas sob o sono dos braços
sei que se despenham caminhos entre dedos cansados
sei que a morte tem ameias como aranhas aprazadas
sei que as gaivotas se submetem aos carações de granizo
mas escrevo lábios e punhais flores e faluas fomes e pulsos
para que me iluminem as pontes
e nelas beba os lúcidos líros em que fremem os barcos
entre mãos mansas e abertas
sei do avanço do tempo e do sal sobre o torso da tristeza
mas iluminam-me as pontes que invento
em verbos onde jorram varandas janelas
na altitude do amor
no sem resto das lâmpadas livres
pois se reergo pontes é para respirar
luís filipe pereira