domingo, 28 de fevereiro de 2010

CADEIRA INSULAR

(imagem: José Pedro Croft)


Dedico este poema à Bri e ao reflorescer da Madeira
É de água este silêncio
(se pudesse rasurava a água)
Escuta-o mudo o meu sangue
Frente às flores submersas
Entre pedras rodando dentro
Das corolas doridas dos ossos
No vão do muro
O ombro das vésperas
De veias.
Onde existe o olor da vida
Enfim lavrado o litoral
Do espelho?
[O rumor iniciou-se nas rótulas
Inclinei-me inteiro depois
Da cadeira ao crânio
Na direcção distante
Da fragílima fábula
Duma encefálica ribeira
(se pudesse rasurava as ribeiras todas)
Sonora soçobrou
Qual haurido hemisfério
A minha alma
É com silêncio e sangue
Ardendo ambos
Que olvido a voz da chuva
(se pudesse rasurava a chuva)
A obcecante carne a oxidar-me
Sobre os joelhos
Após o branco
Eu uma bramida barca
À boca dos mil muros erodidos
(ao rés da vacilação da água rasurada)
o espelho estilhaçado]
A cadeira deixada para trás
Sentar-se-á nela o lugar
Do leitor?
A ideia é fazê-lo aliar-se
À outra vertente do muro
A que começa no chão
Mutilado de alma
Após as cegas chagas
As que ardem ainda
na cadeira
luís filipe pereira

47 comentários:

Anónimo disse...

Sentei-me no "lugar do leitor" e emocionei-me pela qualidade ímpar - é insular de facto o lugar da sua poesia ... - deste (também deste) poema que traz dentro o "silêncio de àgua" para que se não rasure a esperança de que em breve refloresça a Madeira.
Um Poema, a tantos títulos, sublime.
Obrigada, L, filipe
Teresa Cadete

Anónimo disse...

"É de água este silêncio" que uma Poesia magnífica nos oferece, palavras que são "pedras rodando dentro" de quem lê um poema assim.
Belíssimo.
(um abraço à Madeira que reflorescerá)

A. queirós

Ana Guimarães disse...

Madeira boa resiste à água e a outras intempéries!
Abraço!

Brancamar disse...

Muito lindo este poema e com uma construção fabulosa, deixando-nos presos a esta mensagem de hipotéticas rasuras.
Sento-me na cadeira e observo o belo, das metáforas pintadas de dor, que se transforma aqui num hino de esperança e reflorescimento da Madeira.
Tâo belo que transforma o trágico em suaves chagas...
Um Abraço.
Branca

Anónimo disse...

Extraordinário poema: como na ilusão da cadeira na escultura de Pedro Croft, este poema apenas aparentemente oferece uma cadeira onde o leitor pudesse sentar-se confortavelmente, pois, ele está repleto de leituras possíveis, de meandros de "silêncio e sangue", de múltiplos e riquíssimos sentidos, a exigir releituras, a merecer os maiores elogios.
Parabéns.
G. cruz

Anónimo disse...

Notável construção poética: é da mais pura e primeiríssima água, a muitos títulos, esta Poesia.
R. l. Peixoto

luís filipe pereira disse...

A todos os intertextuantes, que tanto enriquecem o ppoema com suas leituras e linhas hermenêuticas, o meu maior obrigado.
filipe

Anónimo disse...

"É de água este silêncio
(se pudesse rasurava a água)
Escuta-o mudo o meu sangue
Frente às flores submersas
Entre pedras rodando dentro
Das corolas doridas dos ossos": primeiros versos tão fundos, tão belos em que as palavras tão justas, tão duras e perfeitas vacticinam a fabulosa construção poética que desinstala, desassossega o sujeito poético e, em sobreposição, o "lugar do leitor": a que vão de muro ele assoma? aquém ou alèm do poema? o leitor é chamado ao poema, convocado; àgua duma ribeira comum, impossível de rasura. Grande Poema!
Mafalda I.

Anónimo disse...

alio-me à outra vertente do muro para dizer o meu deslumbramento ante uma poesia notável, de qualidade maior, sempre surpreendente, original e originárias.

Candeias

Anónimo disse...

Outro poema intenso, outro poema fabuloso: de novo a reinvenção poética, exímia, do estímulo visual da obra de Pedro Croft, o rigor explosivo da linguagem poética, o vaivém no muro como uma circulação sanguínea. Vibrante construção.

J. Bettencourt C.

Djabal disse...

"Quando a mola se distende, certas engrenagens por algum tempo continuam a funcionar, cada vez mais lentamente, depois toda a maquinaria pára, Então, se o sol reaparece, tudo logo se desfaz, o brilhante aparelho evapora: choveu".

Essa poesia de Francis Ponge ocorreu-me na idéia do movimento, na beleza e no tema.

E a sua, com qualidade intensa, dá a resposta à intrigante pergunta do físico: "O que acontece quando se dá a vertente entre duas paredes?"

Dar-se-á poesia, dor e quem sabe, alguma esperança?
Abraços, meu caro amigo.

Anónimo disse...

Exaurida alma assombrada. Poema de desassossego. Poema de silêncio e sangue. Também poema de esperança porque a cadeira, lugar do leitor ode me sento, abre no muro, ainda exíguo, um espaço possível. As pedras, corolas coloridads rodando dentro dos ossos, também em mim, aspiram a rasuras. Mas como rasurar água, ribeiras, chuva? Que não seja jamais rasurada a esperança.
Extraordinário poema. Exímia a construção, o ritmo, a linguagem. Extraordinária a cadeira como metáfora. Extraordinário tê-la pensado assim. A sua imaginação poética, Filipe , não tem limites. Parabéns, poeta. Salica

luís filipe pereira disse...

A todos os intertextuantes deste/neste Poema o meu renovado obrigado. Caro escritor Djabal, grato pela citação do Poeta F. Ponge que muito admiro, pela sua leitura do poema e pela generosidade do seu comentário. A todos, agradeço.
filipe

Anónimo disse...

Espantoso!
A imagem da cadeira, o jogo fascinante em que o poema nos oferece como que um lugar, a que falta o assento (a comodidade das respostas, a segurança, para que sente o leitor no lugar do risco, do instável.
Brilhante construção poética.
(belíssimo o gesto de invocação da catástrofe na Madeira)

L.J, tordo

manuela baptista disse...

sento-me também

embora o acto de me sentar
traga a neblina da ilha
e do chão

do fogo
da água
do silêncio
e de uma esperança inteira
verdadeira

Gosto de José Pedro Croft e gosto do seu poema Luís,

um abraço

Manuela

Anónimo disse...

Espantoso Poema.
excepcional capacidade metafórica e imagística, movimento, ritmo e original construção.
Parabéns,
J,Amaral

luís filipe pereira disse...

De novo, com a genuina gratidão de sempre, realço o quanto vossos ecos, caros leitores-amigos-intertextuantes, enobrecem o que escrevo e o muito ânimo que recebo deles num lastro afectivo que é razão suficiente para continuar este meu-nosso-vosso espaço.
____________________
Professora Isabel Clemente, querida Amiga, não tenho como lhe agradecer os tantos espaços possíveis que abre no espaço poético que, por incessantes aproximações, vou tentando construir.Cheiro o perfume das "corolas coloridas" nas suas palavras. Grato, sempre.
_______________
Estimada escritora Manuela Baptista,eis-me garto pelas suas belas palavras e a partilha dessa "neblina"...........
filipe

Anónimo disse...

Pelo carpir das encostas viajamos, nos braços de palavras e de sal. Perseguimos/Prosseguimos ante o cheiro indecifrável deste verde libidinoso... e é com nomes que a dor é revivida para, com ela, fazer nascer uma já quase esquecida ideia de vida.
Obrigada pelas flores. E pela reverberação das águas.
Da Madeira, com um grande e humilde abraço.
Bri

luís filipe pereira disse...

Querida Bri,
Pela insular amizade que sinto por ti dediquei-te este poema e nas tuas mãos sei que os "nomes da dor" seriam acolhedidos e neles, tu -por metonímia a Madeira inteira - saberias lançar sementeiras de coragem e de esperança com nomes de flores.
a minha amizade. o meu abraço.
filipe

Anónimo disse...

Estrofes sublimes,
refazendo o "espelho estilhaçado",
poemas que assomam dentro do poema,
canto poético e metapoético, também o leitor se senta frente ao muro e ascende, pelo dom desta poesia, ao "vão do muro".
Com admiração,
Inês N.

Anónimo disse...

"No vão do muro
O ombro das vésperas
De veias."
index sui de um poema genial.
L.amaral

Luísa disse...

Agradeço a nobreza da visita e retribuo um olhar de perto, onde tive vontade de sentar rodeada de palavras por todos os lados, menos por um!
E, no silêncio de água,viu-se a inspiração de um autor!
Gostei muito do que vi, li e ouvi neste seu canto de vida e escrita do sol!
Beijinho terno!Volte sempre.Eu, regressarei!

Luísa disse...

Agradeço a nobreza da visita e retribuo um olhar de perto, onde tive vontade de sentar rodeada de palavras por todos os lados, menos por um!
E, no silêncio de água,viu-se a inspiração de um autor!
Gostei muito do que vi, li e ouvi neste seu canto de vida e escrita do sol!
Beijinho terno!Volte sempre.Eu, regressarei!

Tere Tavares disse...

Não bastassem já todos os ruídos moucos, sobram palavras num assento à vista do que passa, pára e lê, pasmo ao identificar-se, como essa água que toma a forma que lhe dá - o poema sobrevive à tudo, assim como renascerá, com a força do seu povo, a Madeira. O lugar do leitor permanece pois que a poesia o reserva - prenhe.
Beijos

Anónimo disse...

Também me alio "à outra vertente do muro" para dar-lhe o feedback de quanto me emocionou este excelente poema.
marta santos

Anónimo disse...

Tantas leituras cruzadas: tantos lugares para o leitor admirar esta construção poética notável.
Parabéns,
M. seixas

luís filipe pereira disse...

A todos os vossos ecos, alguns que aproximam o Atlântico (bem haja cara escritora Tere Tavares, no afecto e alento que os atravessa, meu maior obrigado.
filipe

Anónimo disse...

o lugar ilusório e instável ou a construção do espaço? dialéctica do lugar (em desconstrução/construção): imagem/palavra, silêncio/voz, morte/vida, chuva/fogo, escritor/leitor. charneiras: lugares de rasuras (possíveis). rui

betina moraes disse...

poeta,

um poema carregado de emoção...

belo e significativo.

sua escrita é muito sensível e nos coloca dentro dos sentimentos que você propõem.

sempre aguardo suas postagens.

grande abraço!

Anónimo disse...

Intensidade, emoção,
um rigor extraordinário da língua
e das suas potencialidades,
um trabalho poético profundamente
inspirado,
um estilo inconfundível (insular, de facto),
um amor ao canto, à palavra, à musicalidade e ao fulgor das metáforas.
Enorme admiração,
Is. Moreira

Anónimo disse...

"Onde existe o olor da vida
Enfim lavrado o litoral
Do espelho?"
inigualavelmente neste poema, na
sua Poesia.

O. Boaventura

luís filipe pereira disse...

"charneiras" (obrigado estimado Rui):eis o sentido indeclinável, precioso, de vossos ecos, da vossa partilha.
grato,
filipe

Anónimo disse...

"É com silêncio e sangue
Ardendo ambos
Que olvido a voz da chuva", silêncio (em que a linguagem poética é reinventada) e sangue (a dar fulgor orgânico, intensidade, "olor de vida" ao verbo poético"...
Lindíssimo
M-José Lopes

Anónimo disse...

Belíssimo poema, na linha perfeita da qualidade intensa, rara, dos textos que generosamente nos oferece a ler.
luís f. teixeira

Graça Pires disse...

Que a Madeira se erga com coragem...
Se eu pudesse também rasurava a água e a chuva que tanta gente deixou desprotegida. O seu poema é muito belo.
Obrigada pela visita e pelas palavras deixadas no meu "Ortografia". Virei mais vezes a este espaço.
Beijos.

luís filipe pereira disse...

grato pela generosidade de vossos ecos, leituras, gestos por entre palavras, um agradecimento ainda à Poeta que admiro - Graça Pires - e que muito me honra com sua visita e partilha intertextuante com este meu poema: seja benvinda, são seus estes versos (in Uma Extensa Mancha de Sonhos, p.31): "escrevo rio/e um estuário/nasce-me nos olhos:/curso de água/à beira do verão"(Graça Pires).
A todos,
grato,
filipe

Anónimo disse...

Querido Luis Filipe,
Meu Mestre
Meu Amigo,

No meio dos seus poemas, que leio sempre com curiosidade expectante, pois são sempres tão novos, tão diferentes, tão sentidos, aparecem-me palavras que me tocam profundamente.
Tocam profundamente porque vão rebuscar dentro de mim sensações esquecidas, cores perdidas, sons que vem de longe, tão longe!


É de água este silêncio
(se pudesse rasurava a água)
Escuta-o mudo o meu sangue
Frente às flores submersas
Entre pedras rodando dentro
Das corolas doridas dos ossos
No vão do muro
O ombro das vésperas
De veias.
Onde existe o olor da vida
Enfim lavrado o litoral
Do espelho?

As palavras que o Luis Filipe esgrime de forma tão penetrante, tão poética, tão sentida (repito e repito-me).
Com saudade de o escutar a dizer poesia, nessa voz tão doce, tão tímida, por vezes quase inaudível que nos faz sentar à beira da cadeira para melhor o escutar envolvido na suave musica de Chopin.
Sani

luís filipe pereira disse...

Estimada Escritora Maria Saturnino, Querida amiga Sani,
sempre tão benvinda a este humílimo espaço em que escrevo para intertextuar, prolongando a géstica da partilha que o escrever impõe, sempre tão generosos, sonoros, afectuosos e belos os seus comentários.
muito grato,
filipe

Anaquariana disse...

Dissolvo o silêncio na água, é ele que me leva no labirinto caótico da paisagem. Paisagem que, dentro desta sua inexistência concreta nos arrefece a alma mas este frio que se cola à pele, torna-nos mais fortes.

Este poema é lindo e faz-me estremecer. Obrigada
Ana

Anónimo disse...

SEmpre surpreendente pelo motivo e pela forma, sempre de uma profundidade e qualidade arrebatoras, parabéns pelo excelente poema em que, com desassossego e deslumbramento me sento.

J. A. Dias

Anónimo disse...

Voltei várias vezes ao poema,
entrei nas muitas camadas de leitura que tornam, incomensuravelmente, este poema uma obra de arte.
T. Cadete

Virgínia do Carmo disse...

Curvo-me perante o sublime arranjo poético que do silêncio rompe o chão mutilado da alma...

Grata pela honra da sua passagem pelo meu pequeno lugar...

Abraço

Anónimo disse...

Da "outra vertente do muro" saboreando cada palavra que se esgueira do muro.
Poema Excepcional.

M.R.Pedreira

Mar Arável disse...

A água só podia fazer o que fez

Gostei muito do seu texto

Anónimo disse...

Um poeta extraordinário que habita aqui, junto da palavra poética mais intensa, líquida, vertical, de qualidade assombrosa.
L. Monteiro

luís filipe pereira disse...

Com renovado entusiamo e gratidão,
eis-me muito sensibilizado pelo modo como os vossos ecos, leituras, linhas de água generosa, têm enriquecido muitíssimo este meu poema, têm cambiado a cadeira insular numa ampla cadeira "arquipélaga".
grato, filipe

Vieira Calado disse...

Parabéns!

Gostei do que li.

Saudações poéticas