terça-feira, 6 de setembro de 2011

ESTRADA, AO SUL

imagem: Robert Frank



Era uma estrada de silêncio,


espécie de porto onde pode a pele


rasgar do horizonte o leme das feridas


as cúpulas das cicatrizes,


e então encontrar a resiliente ruína,


esse vazio de náufrago vertido na página


em que houvesse o poema desertado da harmonia.


Uma estrada nascendo da poeira,


da pura ciência das cinzas,


onde os nomes eram percutidos pelos martelos do esquecimento,


prévios ao modular-se da vida pelos sulcos da manhã


ao mar virados, ao aoitecer das âncoras.


Era uma estrada de silêncio


a desfolhar-se na locomoção dura das horas


como se em páginas pronunciadas pela verbal cal do vento,


nela emudeciam as rosas e o vinho


como se morresse o seu eco


muito rente ao descaminho minucioso dos dedos.


Como nela envelheciam os frutos e as fogueiras,


como nela se extinguiam os emblemas das flutuações da água


que empurram as palavras para o coração da cor


e, liquidamente, do ardor do alento.


Nela porém o poema ousará o crime de erigir novas cicatrizes,


descuidando do clamor dos astros e das direcções amantes,


porque o poema debate-se nas cinzas


opera vagarosamente,


move as suas mãos mandibulares ao longo da letargia,


ao leme da sabedoria do silêncio,


lábio que tremula.


luís filipe pereira

41 comentários:

Anónimo disse...

Que saudades L. Filipe Pereira,
aqui venho, aqui me encontro com a melhor da poesia que leio, que releio, veio o intervalo e dele surgiu esta "Estrada, ao Sul", um poema que nos leva ao vínculo do silêncio, aos seus versos de uma profundidade ímpar a oferecer-nos esta espécie de arte poética, tão exacta, tão sabiamente corporal e é em nós que temos o privilégio de ler a sua poesia que o poema, a estrada com o desenho da pele, de "lábio que tremula", é em nós que o poema "opera vagarosamente".
voltarei, pois agora quero entar, percorrer esta "estrada, ao sul".
T. Cadete

Carlos Ricardo Soares disse...

Li e vou relerrr este nó de estradas que é um nó de pontos cardeais. Nem todas as estradas vão dar a Roma. E ainda bem!
Parabéns!
Abraço

Anónimo disse...

Parabéns Caro Poeta,

por mostrar quão resiliente será sempre a poesia por mais duras e cínzeas que sejam os signos (poeira, cal, silêncio, cinzas) de um tempo de indigência extrema, mas que o poema lavra, trabalha no seu incerto mas soberano sopro, em seu "trémulo lábio".
Excelente poesia esta.

j. morais

Anónimo disse...

"esse vazio de naufrágio vertido na página", que poema extraordinário, que duramente reflecte tempos que são estradas de silêncio, de cinza, feridas, cicatrizes de que o trabalho do poeta não se alheia, mergulha nesse presente sem bússola e dá-nos pontos cardeais, orientações poéticas.
bem haja!
G. Candeias

luís filipe pereira disse...

A todos os que vieram até ao poema dando mais sul a esta estrada conotativa, meu obrigado.
filipe

Anónimo disse...

Abençoado o "crime" que o poema ousa: reerguer as cicatrizes, deixar que por ele passem os sinais do tempo, as direcções da temporalidade. Uma maravilha, uma experiência percorrer estes versos de "Estrada, ao Sul".

H. Pitta

Maria João disse...

E nesse vagar, renasce das cinzas o mais profundo silêncio, urdido num poema que é assombro e talento.

Obrigada, poeta!

Anónimo disse...

"ao leme da sabedoria do silêncio"o poema trilha o horizonte da sua fundação.
Parabéns.

A. Pedreira

Tere Tavares disse...

Num ponto sem ponto onde o diálogo com o silêncio e a estrada e a cinza emolduram essa preciosa poesia - é para ler sempre. Com o corpo todo.
Grata pela partilha.
Abraço

luís filipe pereira disse...

a todos os que visitaram, leram, comentaram, enriqueceram este poema, meu vasto obrigado, saudação para os que flanquearam, pela primeira vez, esta janela onde para vós escrevo. Felicitação especial para a amiga e escritora Tere Tavares que lançou recentemente o seu último livro, desejando-lhe o maior êxito junto dos leitores, únicos mediadores intruídos para quebrar o silêncio.
grato,

filipe

Anónimo disse...

Um poema de enorme intensidade, uma exatação do silêncio, das cinzas e cicatrizes que o poeta transforma em estrada para o trânsito do seu ofício de extraordinário construtor de versos.


M. Queirós

De Amor e de Terra disse...

Agradeço a visita lá em "casa"
e as belas palavras que teve a amabilidade de lá deixar, à minha espera.
Belíssimas estas suas que me encheram de outonos, onde há muito aconteço...
Obrigada por elas!
Bj
M.M.

mel de carvalho disse...

Era,
é, Luís, uma estrada de silêncio (tão necessário)
para que possamos ouvir
o renascer puro
nas ciências (suas) raízes do verbo.

É, um precioso instante
luminescente
a claridade solar de um tempo a sul
- poesia sua, que não permite o "anoitecer das âncoras" e se faz barco e rumo e mar.


Sabe da minha admiração, Luís. Bem-haja
Mel

luís filipe pereira disse...

cara escritora Mel de Carvalho, cuja escrita há muito admiro, eis-me profundamente grato pelo seu comentário tão fecundo, pela generosidade das suas palavras.

bem-haja
abraço amigo
filipe

Anónimo disse...

Versos que nos tocam e nos mostram, pelo poder iluminante das metáforas, pela catábase que reflui até à matéria "trémula" de que o poema emerge para partir, ao sul, na sua estrada de silêncio.
Versos-estradas de sentidos por onde vale a pena caminhar, pois o assombro toca-nos a cada sílaba, na musicalidade que tece o próprio silêncio.

T.R Lopes

Anónimo disse...

"esse vazio de náufrago vertido na página




em que houvesse o poema desertado da harmonia.", versos antológios de um poema extraordinário.

diana S. Leite

Sonhadora disse...

Poeta
No teu poema senti o sal das lágrimas...o anoitecer da ilusão...a carne rasgada pelas águas paradas do amor...a boca a saborear o espinho...nas mãos o braços do destino...nos versos o pão da palavra...na mente o labirinto de todas as portas...numa memória atada no altar do tempo...onde se guardam todos os silêncios que os olhos inventam...todas as noites onde somos ou nos inventamos.
E saio daqui plena de poesia e agradecendo a visita ao meu humilde espaço.

Deixo um beijo
Sonhadora

luís filipe pereira disse...

A todos, de novo,
agradeço a gentileza da leitura e dos ecos, das linhas de sentidos que ampliam o trilho do poema e mais o fazem ressoar.

grato,
filipe

manuela baptista disse...

no descaminho minucioso dos dedos

vale a pena esperar o inverno o verão

por um poema assim!


um abraço

manuela

luís filipe pereira disse...

Cara escritora Manuela Baptista, cujo labor literário muito aprecio, eis-me grato pelas suas palavras generosas e pela visita e eco gentil a este poema,

a todos grato
filipe

Anónimo disse...

Um poema intenso, fabuloso na construção, vivido verso a verso, com uma autenticidade ímpar na arte poética que colhe do silêncio o fio do horizonte para lançar sentidos como barcos, jangadas que nos tocam, emocionam, porque é excelente esta poesia que jamais deveria ser votada ao silêncio, antes pelo contrário.


M, Martelo

Lídia Borges disse...

O sul das ilhas, do azul, de todos os sonhos sonhados e "uma estrada de silêncios" em sentido inverso.

Gostei do ritmo, da aliteração,do grito...

Anónimo disse...

"ciência de cinzas",
de cicatrizes,
veios, pois,
de uma extraordinária
voz poética.


joana Andrade

. intemporal . disse...

.

.

. vale sempre a pena a espera . e suportar meio.inverno . a primavera toda . o verão quase até ao fim .

.

. a espera trouxe.me o poeta ao regaço . e as suas palavras voltaram a em.balar.me .

.

. grato . íssimo de tanto .

.

. e abraço.O .

.

.

luís filipe pereira disse...

Caro Paulo, do magnífico bloque Intemporal (que vivamente recomendo),
eis-
me
grato
(íssimo também)

por contar com a leitura, a generosa ressonância,

abraço
po(i)ético

filipe

Anónimo disse...

Que "os martelos do esquecimento"

não continuem a deixar numa margem de silêncio

uma Poesia Maior,

na sua mais pura loquacidade,

força, beleza, profundidade e música.

L. Peixoto

Anónimo disse...

"lábio trémulo",
assim o poema desenha e percorre a "estrada do silêncio", reúne feridas e cicatrizes, colige cinzas e tem a "ciência pura" da palavra poética, mostrando-nos a matriz de que brota, o ponto zero de onde parte o próprio poema.

Parabéns, um privilégio ler a sua Poesia

J. Amaral

BRANCAMAR disse...

Caro Luís Filipe,

Há tanto já passei, li e reli, mas só agora parei para escrever.

E há maior sabedoria que aquela que se gera no silêncio que cria o poema?

Momento de parto e luz, às vezes difícil, outras fácil, mas sempre um momento como este, sublime.

Deixo beijinhos
Branca

BRANCAMAR disse...

Caro Luís Filipe,

Há tanto já passei, li e reli, mas só agora parei para escrever.

E há maior sabedoria que aquela que se gera no silêncio que cria o poema?

Momento de parto e luz, às vezes difícil, outras fácil, mas sempre um momento como este, sublime.

Deixo beijinhos
Branca

luís filipe pereira disse...

A todos hic et nunc,
e sempre,
meu obrigado sentido
pelo tanto que os vossos comentários adensa, aclara, enriquece o que para vós escrevo.
Brancamar, bem-haja pela simpatia, pelas palavras generosas

a todos grato
filipe

Anónimo disse...

"o poema debate-se com as cinzas", mas na queimada à volta das palavras são estas que germinam, com uma frescura e uma originalidade que emociona.
A si, à sua extraordinária poesia,
bem haja


Mariana Salles

Anónimo disse...

Estrada de silêncio que percorro, procurando pautar meus passos pelos passos do poeta.
Estrada de silêncio, nascida da pura ciência das cinzas onde todavia, renasce o poema.
Procuro acompanhar-lhe os sons, para ouvir o poeta, desvendar-lhe as palavras para acompanhálo na caminhada por essa estrada silente onde envelhecem fogueiras e as palavras são empurradas para o coração da cor.
Magnífico, Filipe
Um abraço.
Isabel

luís filipe pereira disse...

obrigado estimada M. salles.
______________-
obrigado, do coração, Professora Doutora Isabel Clemente, minha Amiga Maior, pela leitura, senpre uma intraleitura, de quem conhece fundamente o que escrevo, grato pelas linhas de sentido, estradas outras, que abre na sua "exegese inspirada". A minha amizade inteira, sempre.
grato,
filipe

Virgínia do Carmo disse...

Todas as estradas são caminho. E este poema levou-me longe. Obrigada.

Um abraço

Anónimo disse...

"do ardor do alento"
: a sua poesia,
extraordinária.

J. Morais

Graça Pires disse...

Luís Filipe, que surpreza! Fiz uma primeira leitura do teu livro "A Tela do Mundo" e só posso dizer-te que é um livro muito belo. Os poemas são "pintados" com rigor. O vocabulário é riquíssimo e as metáforas inesperadamente singulares. Obrigada por me proporcionares esta leitura. Um beijo.

Graça Pires disse...

Desculpa. Quis escrever surpresa.
Beijos.

luís filipe pereira disse...

Caríssima Poeta Graça Pires,

de novo digo-lhe do prazer imenso de ter a oportunidade de conhecê-la pessoalmente - logo num dia especíalissimo de homenagem ao Poeta António Ramos Rosa, na sua residência por ocasião do lançamente da Revista cultura entre culturas - já que, desde há muito, admirava profunda e genuinamente a qualidade da sua obra poética, justamente reconhecidada com vários prémios de poesia

muito obrigado pelas palavras generosas e lavradas por um saber de experiência feito
que profere em relação ao meu livro de poesia A Tela do Mundo.

Um privilégio ler a sua poesia,
um prazer imenso conhecê-la pessoalmente.

bem haja

filipe

Anónimo disse...

Poema sublime,
estrada nas margens da noite,
com o sabor a sul que os versos
erigem,
estrada de um trabalho secreto,
de uma construção de pontes e caminhos, de sombra a sombra, com a claridade do sul de permeio.

R. Sousa

Anónimo disse...

"lábio que tremula",
tal como o poema percorre o canto e as suas margens ora de claridade ora de treva coligindo as palavras para uma trajectória uma estrada desenhada do asfalto para a luz em busca do sul, lugar da sua poesia extraordinária.

Pinto de Almeida

luís filipe pereira disse...

a todos, de novo, com a gratidão e carinho de sempre, digo-vos obrigado pela gentileza das palavras, pelos comentários que engrandecem e espraiam o próprio poema, fazendo parte dele por-tanto.

filipe