
porque chega, improvável e exacta, a tua mão
quando num rumor elíptico se afasta a minha
para desembocar numa secção da luz
em que o centro se rompe,
deixa-me escutar de novo o dividido calor do canto
onde, qual ave, próxima e longínqua, me afunde
porque é tão sumário o sabor da ausência
e tão abrupta a alba da despedida,
deixa-me soletrar nos ressaltos dos recifes
de ancas moventes, macias, reluzentes
onde possa como árvore, verde vírgula, adormecer
porque se afasta a tua mão
quando a tange a minha com os tensos braços da manhã
deixa-me iluminar esta ilha que refulge nas vértebras de um mar
todo fluxo, todo ossuário e ombro, busto azul do abandono
porque conto pelos dedos os dias que agora são dedos de memória
deixa-me agarrar a entoação dos ecos,
essa nervura de ti a que acediam as chuvas do meu corpo
nas vertebrais colunas do ocaso.
luís filipe pereira
34 comentários:
que saudades! Desta POESIA!
......................
Que poema............
que agarra,
que perfura,
que é PERFEITO,
para ler, reler
voltarei.
Teresa Cadete
"com os tensos braços da manhã" acende o Poema os dias feitos ecos que ficam em concha nas mãos que se não fecham, se dão a mãos outras, invocando-as e celebrando-as ainda quando por dentro rumoreja táctil a distância.
Extraordinário POema!
J. Morais
"porque se afasta a tua mão
quando a tange a minha com os tensos braços da manhã"
de um lirismo ímpar este extracto que destaco, do todo, igualmente belo.
abraço e a minha gratidão pela partilha
Mel
obrigado Caríssima escritora e Poeta que muito admiro Mel de Carvalho, pela generosidade das suas palavras e por esta visita intertextuante, a este espaço de partilha.
muito grato
filipe
"deixa-me iluminar esta ilha que refulge nas vértebras de um mar", obrigado caro Poeta por fazer da poesia um lugar de iluminação, dos versos ilhas ímpares de intensidade refulgente, por nos permitir embarcar neste encontro com a Palavra mais verdadeira, imagética, iluminante.
R. Martelo
deixa-me escutar de novo o dividido calor do canto
onde, qual ave, próxima e longínqua, me afunde
porque é tão sumário o sabor da ausência"
Admiro a tua poesia, no seu todo inequívoco de imagens e sentidos supremos. Um abraço amigo.
Obrigado Cara Amiga e Escritora Tere Tavares, por acompanhar de perto e generosamente a minha escrita.
grato,
filipe
"onde possa como árvore, verde vírgula, adormecer"
antológico verso!
Magnífico
João M. F. Jorge
Obrigado pela passagem no meu blogue . È um gosto ler a sua poesia intensa , imagética sempre nova , Poeta !
Um abraço
JRMarto
eis-me grato ao poeta josé ribeiro marto pela gentileza da leitura e generosidade das palavras.
filipe
"nas vertebrais colunas do ocaso" se descobre este poema-pórtico que reinventa de forma sublime a excelente fotografia de jorge Molder, tornando-a Poema, pondo-lhe versos em cada dedo. Excepcional.
G.Cruz
porque é tão sumário o sabor da ausência
e tão certo o eco
na palma dessa mão
saudando a sua poesia e a foto de Jorge Molder
duas presenças!
um abraço
manuela
a G. Cruz e Manuela Baptista, escritores que muito admiro, agradeço o eco que enobrece este poema
grato
filipe
DE uma profundidade e concreção sinestésica absolutamente ímpares.
Parabéns
M- Seixo
Há lugares onde a poesia emerge ao mais breve gesto de uma mão.
Imenso, este poema.
Obrigada!
grato pela generosidade das suas palavras cara escritora Lídia Borges.
filipe
Na mão se desenha densamente a ausência, um adeus que, oximoricamente, é a presentificação da mão que falta e, por isso, no modo como à presença vem, em cruz, a ausência o poema enriquece-se de sentidos e meandros, enriquecendo,-nos, muito.
M. Queirós
Poeta
IMENSAS as mãos que desenharam esta ausência tão cheia...este soletrar de palavras tão INTENSAS.
Obrigada por me visitar e dar-me a oportunidade de receber um banho de poesia.
Um beijinho
Sonhadora
A M. Queirós e escritora "Sonhadora" agradeço-vos a gentileza da leitura e a generosidade dos ecos que expandem, engrandecem o poema
grato
filipe
Extremamente interessante a fotografia de Jorge Molder.
Fabuloso o poema que nos põe sobre o olhar o jogo da presença-ausência pela metonímia da mão.
parabéns eminente poeta!
B. de Almeida
é imperioso vir, frequentemente, reacender-me no poder ígneo destas palavras; beber deste combustível para o pensamento
abraço
ALExandre
PHelps
Caro ALEXandre eis-me muito grato pela visita, pela leitura e sabe que é recíroca a admiração funda que tenho pela sua poesia pensante,
"parole parlante"
obrigado e abraço
a todos, meu agradecimento.
"todo ossuário e ombro"
magnífica imagem antitética que marca o ritmo do poema alternando entre a carne da presença (ombro) e o esqueleto (osssuário) do abandono.
grande poema!
Inês
.
.
. gosto de ler.te . pela fulgência com que me acrescentas . sempre .
.
. de mãos dadas à palavra . o teu poema . é perfeito .
.
. um sentido abraço . sempre .
.
. paulo .
.
.
obrigado Inês pela leitura e feedback
obrigado Paulo, cuja escrita admiro profundamente no seu sub-lime blogue intemporal, pela generosidade das palavras entre a reciprocidade de um gosto de nos lermos.
grato
filipe
Esse mar todo, "busto azul do abandono" que se escreve nos traços da memória em plenas mãos abertas ao dizer poético
Cristina M. lopes
"porque é tão sumário o sabor da ausência
e tão abrupta a alba da despedida,"
Assim é! Belíssimo poema.
Obrigada
Cristina M. Lopes
cara escritora Lídia Borges,
eis-me grato pelos vossos ecos, pela legente presença.
obrigado a todos
filipe
simbiose extraordinária entre palavra e imagem. Poema que escava na própria imagem da mão as linhas em que se cruzam a presença e ausência, o branco-preto da distância e da saudade, do desejo e da lembrança
Bravo!
T. Peixoto
Belíssimo poema Luís Filipe, incomentável.
Beijinhos
muito obrigado a todos que trouxeram ecos que tanto enriquecem o poema.
grato a Brancamar, pela gentileza, pela leitura e salutar eco.
filipe
"essa nervura de ti"
poema extraordinário,
mâo-folha
inscrição de ausência
que é presença na modelação
do eco.
bravo.
A. Seixo.
Olá Luís,
Lfm Bernardo comentou a tua ligação.
Lfm escreveu: "Li o poema, mais o outro, e o outro...enfim, todo o blog. Eu, o leitor, fui facilmente seduzido pela dimensão corpórea doss textos, dada a surpreendente organização rítmica das palavras, aliada aos recursos estilísticos e imagéticos que tão habilmente maneja. Aliados à vida, ao desejo e ao prazer, o sofrimento e a solidão têm uma forte presença (percepcionei isso). Ouvi igualmente vozes caladas; ouvi o desespero e a saudade nos soluços contidos.
Face à constante ampliação de prazeres e desejos, de solidões e de sofrimentos, de paisagens simples e complexas, fui levado a remexer nos fragmentos mais escondidos nas profundezas do inconsciente. Parabéns e obrigado pela viagem."
Saudação fraterna. A qualidade, a sensibilidade mm sempre um fogoso aplauso.
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