
porque chega, improvável e exacta, a tua mão
quando num rumor elíptico se afasta a minha
para desembocar numa secção da luz
em que o centro se rompe,
deixa-me escutar de novo o dividido calor do canto
onde, qual ave, próxima e longínqua, me afunde
porque é tão sumário o sabor da ausência
e tão abrupta a alba da despedida,
deixa-me soletrar nos ressaltos dos recifes
de ancas moventes, macias, reluzentes
onde possa como árvore, verde vírgula, adormecer
porque se afasta a tua mão
quando a tange a minha com os tensos braços da manhã
deixa-me iluminar esta ilha que refulge nas vértebras de um mar
todo fluxo, todo ossuário e ombro, busto azul do abandono
porque conto pelos dedos os dias que agora são dedos de memória
deixa-me agarrar a entoação dos ecos,
essa nervura de ti a que acediam as chuvas do meu corpo
nas vertebrais colunas do ocaso.
luís filipe pereira