
Gute Nacht
Fremd bin ich eingezogen,
Frem zieh' ich wieder aus.
Der Mai war mir gewogen
Mit manchem BlumenstrauB.
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Boa-Noite
Estrangeiro, cheguei.
E estrangeiro parto.
Maio acolheu-me favorável
Com muitos Ramos de flores
(Wilhelm Müller)
Lá fora, o verão fustiga vagamente
os seus frutos.
Flutua a planície sede fora
num ondulado frio,
a arder.
Ouço o refulgir espesso do mar
de milho esquecido nas eiras.
Pouso a cabeça sobre o som,
atiço a sombra do sonho.
Com o vento -
este segredo de sede a vogar
nas minhas mãos -
vagueio pela casa.
Sento-me sobre os calcanhares
dos vultos, entrelaço-os no canto.
Ao fundo, fitam-me, vagarosos,
os degraus pensativos dando a ver
a porta.
Mais ao fundo, sob a secura
dum girassol de gelo e fogo,
escuta-me o eco, imóvel, do poço.
Até às entranhas entardeço.
Escrevo na escada estival
os teus passos. deixo-lhes,
no mais escuso degrau uma urze
e esta dedicatória que desponta:
lê lentamente a subida, alonga-lhe
o som. desci à cave quebrada onde
o vento é quase compacto, quase
latido de lume. desci às camadas
mais frias e fundas das calmas
variações da casa.
Desço à cave.
Estou no centro, na traqueia
da treva lenta.
Teias entrançadas, de brisas de aranhas
de bocas, espalham o espaço em torno.
Sinto uma tranquilidade saturada,
o ressequido em redor, sem nome.
Escorre-me o pensamento,
lança e lâmina,
pelos pilares, pelo que sobra das raízes
submersas no esguio meio-dia
dos escombros.
Cá dentro, deixo uma lágrima
morrer-me.
Nos dedos tão audível é o marulho
duro da vida, do vento: altissonante
abandono.
Nenhuma lágrima.
Nenhum passo teu,
porque nenhuma estalactite
a cair-me nos pés,
porque frio fruto nenhum
a anunciar-me que chegaste.
luís filipe pereira