
sobre a pedra deitada sob a cinza das nuvens. talvez silêncio só assome aos teus ouvidos.
talvez não tenhas desistido de levantar um braço até ao bramido da estreante estrela que tarda. apenas recuperas no rumor da pedra o calor do teu corpo cansado da espera do que tarda sempre. perdeste o navio e as ilhas emplumadas. detrás dos passos rasuraste as pegadas do caminho que em teu coração talvez anunciasse o mar. aproximas a pupila da longínqua noite obscura como se escutasses com têmporas de terra a erupção da lava também tardia.
só a pedra te afaga e afasta o pranto quando do teu peito há tanto se evadiu uma ave exangue de sangue e de luz. só a pedra te pacifica e é fria como um acorde de sol incomensurável e que invariavelmente tarda. sobre a pedra já nada te acontece de mal e da sombra e da cinza agora podes tecer a lâmpada de um lábio que levante o viço de um abrigo sem fim.
sabes-te nulo até aos ossos embora te revejas noutra pele que teces na partitura de reticências traçadas no raso chão sob uma colmeia negra de nuvens.
às vezes para lá dos céus e dos chumbos. para lá dos caminhos e das clavículas das esperas uma paz de pedra embala-nos a esmo e a solidão do universo sabe a uma doce superfície.
talvez te encontres agora a assobiar contra a agonia da terra à flor do teu corpo liberto dos caminhos, companheiro das nuvens e do ocaso das cinzas. talvez a estrepitosa espada do silêncio sele no teu assobio um timbre que seja mais tarde a simples restauração da luz.
estás sentado sobre a pedra talvez a mascar com as gengivas da sombra a mínima submissão à compassiva chegada de um esquife estrelar. talvez tarde. só a pedra será a balança de pesar os barcos das tuas preliminares partidas.
só a pedra que agora te agasalha e escurece poderá ser a voz do meu espanto e a berma translúcida do caminho a dar ao baldio deste texto.
luís filipe pereira




