quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Foto gentilmente oferecida pela escritora brasileira Paula Cajaty: folhas sobre o Rio de Janeiro



para Paula Cajaty

uma inscrição a sangue seco

na cinza do céu do Rio de Janeiro.

como se fosse um lamento de seiva sequiosa

de versos de verão.

dulcíssimas folhas esperguiçando-se

como refulgentes relógios de sol

escrevendo os trópicos aéreos

em que nasce a tremenda nostalgia.

folhas, feridas do outono, de almíscar e de amendoeira

em flor adiada.

erguem arcos de sol e salmos

entre os brancos baldios dos braços

na sua fecunda sede da flor.

são cálidas caligrafias como candeias solares

do intacto iodo e do sul infinito.

folhas, litorais do levante, de crescentes abismos

a meio do vento no meio-dia do céu.

luís filipe pereira

quarta-feira, 30 de julho de 2008

ANA HATERLY, série 1999: O Pavão Negro & poema da poeta-pintora & UMA GLOSA (minha) d'O Pavão Negro

"O pavão negro da escrita
abre um leque de opções
exibe o luxo
do seu traje-cárcere
Babel silente
no vazio da página
prende o tumulto da voz
fixa o assalto da mão
Última instância rebelde
é jogo
luta
luto
grito calado"
Ana Hatherly,O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003, 19
_______________________________________________________________
O pavão traça-se______________
escurece o inumerável grito no obscuro esgar de cada grafia
crescem nas líquidas caudas manchas melodiosas
como se fossem fatias do ensombrado canto do sol
a mão acompanha a mancha de tinta musical
que o tempo virá esclarecer nas elegias que na tela esvoaçam
e fazem da página da alma uma discordante demonstração
do sismo
do susto
do silêncio
dos agudos leques mastigando a mão até à língua misteriosa dos olhos
o pavão traça-se____________________
é uma imagem que se abre sobrevoando no grito a garganta inclinada
para o mágico pavão num instante de negro
para a mancha a sabotar o poema porque prévia ao signo
o pavão traça-se__________________
e no bando pousado na boca dos negros nomes sacode-se
a solitude da pele sobre o papel do pavão sobre a pele
dos espaçamentos
das entranhas
o pavão traça-se_________________________
transviado engole na mão as asas do espaço sobre a escrita-tinta.
luís filipe pereira
_____________________________________________________________
Ana Haterly/Pavão Negro (1999)

terça-feira, 22 de julho de 2008

Talvez Seja Silêncio Só (Foto de Paulo Nozolino)


sobre a pedra deitada sob a cinza das nuvens. talvez silêncio só assome aos teus ouvidos.
talvez não tenhas desistido de levantar um braço até ao bramido da estreante estrela que tarda. apenas recuperas no rumor da pedra o calor do teu corpo cansado da espera do que tarda sempre. perdeste o navio e as ilhas emplumadas. detrás dos passos rasuraste as pegadas do caminho que em teu coração talvez anunciasse o mar. aproximas a pupila da longínqua noite obscura como se escutasses com têmporas de terra a erupção da lava também tardia.
só a pedra te afaga e afasta o pranto quando do teu peito há tanto se evadiu uma ave exangue de sangue e de luz. só a pedra te pacifica e é fria como um acorde de sol incomensurável e que invariavelmente tarda. sobre a pedra já nada te acontece de mal e da sombra e da cinza agora podes tecer a lâmpada de um lábio que levante o viço de um abrigo sem fim.
sabes-te nulo até aos ossos embora te revejas noutra pele que teces na partitura de reticências traçadas no raso chão sob uma colmeia negra de nuvens.
às vezes para lá dos céus e dos chumbos. para lá dos caminhos e das clavículas das esperas uma paz de pedra embala-nos a esmo e a solidão do universo sabe a uma doce superfície.
talvez te encontres agora a assobiar contra a agonia da terra à flor do teu corpo liberto dos caminhos, companheiro das nuvens e do ocaso das cinzas. talvez a estrepitosa espada do silêncio sele no teu assobio um timbre que seja mais tarde a simples restauração da luz.
estás sentado sobre a pedra talvez a mascar com as gengivas da sombra a mínima submissão à compassiva chegada de um esquife estrelar. talvez tarde. só a pedra será a balança de pesar os barcos das tuas preliminares partidas.
só a pedra que agora te agasalha e escurece poderá ser a voz do meu espanto e a berma translúcida do caminho a dar ao baldio deste texto.
luís filipe pereira

sábado, 12 de julho de 2008

O VAZIO: Sempre o mesmo sopro em tantos sopros diversos (fotografia de Ricardo Tavares)

ele dava um passo para ele. não recuou. como se amasse as mudas cicatrizes do abrigo. a sombra no som da luz sempre mais lenta é a soleira do míscaro chumbo.
às vezes a escuridão deixa morrer o corpo com um gesto inacabado.
oscilante na sua ilesa incompletude entra. mas o quarto interpõe-se entre os seus passos como uma branca palavra suspensa num brilho de boca. primeiro o pé como um signo instável, a perna depois e depois o tronco. reconhece o lugar. o vazio sobre o vazio.
olha em torno desconhecendo para onde se voltar.
é talvez o seu quarto. é talvez o exílio de um deserto extreme como uma acolhedora linha de anca. é uma esquírola de abrigo. é um negro derrame na intermitência dos passos ante um degrau destroçado.
estende-se o vazio como um osso horizontal. como um reconhecimento construindo-se num rectângulo estagnado.
sorri-lhe. na cega memória que tem dele.
sabe que se gritasse ouviria o eco de um nome único. o seu nome soletando-se na silente e sequiosa contagem dos passos.
está na viscosa meia-noite do vazio e agora o quarto tem a amplitude do quebrado arco da sua fronte. poderia mesmo esgoli-lo caso soubesse entender-lhe o sentido. mas a melancolia do silêncio sai, num sopro de sopros, da crisálida de âmbar dos seus olhos, afagando as declinações do abrigo que o texto percorre como vagarosamente um cão sem dono.
luís filipe pereira

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A SOMBRA NO SOALHO (fotografia de Francesca woodman, 1976)

este é o meu esboço. abriu a permanência da pele. permanecer. girou a imóvel grafia do gesto num lateral alvoroço de silêncio irreparável. em redor das mãos vejo outras mãos roendo-me como muros. sentada desenhou o corpo que fazendo-se rarefazendo-se nas tábuas que desobedecem às têmporas. sento-me sinto-me. o corpo caminhava colado ao chão como um filme mudo. revolveu a poalha da recordação.depois, a luz patriarcal ao rés das pernas. quem vive no soalho além de mim? cada tábua era a única verdadeira mão que voraz se estendia. lentamente lançou outros ângulos para lhe cercarem o corpo. cegamente deixo-me deslizar para dentro. um a um, os ângulos feriram o soalho até que de joelhos o espaço descruzasse os invisíveis pulsos. rodou a linha de uma dúvida. leu no cavalete do corpo a mudez. mudou as frestas portáteis sob os pés. percorro-me. com a suavidade da dúvida irresolúvel como um traço iminente entre os dedos desferiu a dor da semelhança. rasurou-a contemplando-a na matéria da madeira. estou aqui estou ali nesta hora de desmando neste diferido desacerto. aguadamente sobrevoou as pegadas do assombro para mergulhar numa órbita imaginária sob o enclave da sombra. na seda especular do soalho cravou o corpo encenado por entre as malhas do medo como o véu de uma voz tábua a tábua volteando. em imagens falo-me em micro-écrans escuto-me. decidiu-se por um ponto de partida: traçar nas tábuas um repetível resíduo. permanecer. fechou na pele a pele. no soalho desenhou o provisório som da permanência.
luís filipe pereira

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Obrigado Fernanda por este texto sob o signo da Cal

Perscruto algo que me faça entender o uso da palavra “cal”. Sim. Não raras vezes, encontro-a nas prosas e poemas de vários autores credenciados, como António Ramos Rosa, João Rui de Sousa, Luís Filipe Pereira. Como se não bastasse, eis o último livro de José Luís Peixoto. Na sua capa, apresenta uma fotografia de uma mão magra, envelhecida e com os seus ramos circulatórios bem marcados. Esta mão empurra, como a querer voltar ou recordar a sua passagem, um pedaço da parede de um muro branco, que deduzo ser pintado a cal. Quando digo muro, é mesmo muro. E a mesma palavra, “Cal”. Assim é o título deste seu livro em prosa. Tento entender o valor da palavra “cal”. Então, escrevo…
Os dias, estão quentes, muito quentes. O sol queima nos corpos, na areia, nas matas, nas casas. É tempo de busca na protecção. Alerta laranja, vermelho, perigo de autocombustão. É tempo de proteger as memórias do passado. Longevidade. A sua rigidez, através do símbolo do próprio tempo. Cal. É a sua cor. O branco que a reveste acaricia na calma e acalma a transparência de olhares sentidos. Sensibilidades presentes e sólidas. Na pobreza de suas casas está a grandeza da força da cor e dos gestos térreos. Gestos brancos. Rostos que esboçam sorrisos. Estátuas que sabem articular palavras, que o vento e os poetas, quando chegam, se encarregam de levar, até onde lhes é permitido alcançar.
É cal, a linguagem dos nobres humildes.
Dite Apolinário

sábado, 21 de junho de 2008

1º Prémio Do Concurso Literário "Dar Voz à Poesia"/2007/2008

O painel de Júris composto pelos Professores Doutores Isabel Pires de Lima, Maria João Reynaud, Pedro Eiras, Rui Magalhães, Paulo Pereira e António Manuel Ferreira, deliberou a atribuição do 1º Prémio a este meu poema - a pausa- que partilho com todos os visitantes desta janela de um escrevente abrindo a todos a casa dos afectos e das intertextualidades.


(a pausa)

com julieta de bella bartók abro a última porta para a noite
diante dela assombra-se o pássaro da intimidade ante a pausa do ser
a noite é um nome sitiado no luar à beira da mutilação
a última porta é o intervalo de uma palavra na luz de incerto lábio

ouço os decibéis oblíquos de um melro concentrado no desvio
diante dele os olhos do espelho descem pelas escarpas da casa
aproximo-me da silhueta nublada do plátano e do sabor nupcial do piano
julieta é o sopro das sonatas lentas sobre a copa musical do longo ditongo

o pássaro transcorre do pudor e pousa uma asa nua nas entrelinhas de neve do texto
a última porta pulsa como um felino de sangue fragmentando o teclado
respiro os andamentos do horizonte revelando-se fenda a fenda como um fruto
a música arterial da noite mune o núbil cântico de julieta nas crinas dos cometas

a última porta permanece aberta como uma pedra primitiva e ardente
no desvio do cântico o melro escreve a paisagem com o dedo purpúreo do poema
os alvéolos estelares já encontraram o poço a esmo nos alicerces da pausa
julieta é o tremular das codas de tâmaras que a noite clarifica

com julieta de bella bartók abro a última porta para a noite
e sob o efeito da pausa ponho a ébria água do poço a sonhar com orquestras de peixes


luís filipe pereira

http://issuu.com/jmuge/docs/voz_poesia_12/6?zoomed=true&zoomPercent=100&zoomXPos=1&zoomYPos=0.21217391304347827

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Acaba de ser publicado na Revista Umbigo este meu conto:Eis o início-convite

O escritor à procura da personagem


Vicente estava sentado a uma mesa num café de aldeia igual a tantos outros cafés de aldeia. O sol incendiava-lhe os joelhos sob as calças brancas da cor do tampo da mesa macerado de manchas, círculos de borras, nomes a canivete. Pediu um café. Era meio da tarde. Os pássaros debicavam migalhas e sombras.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

ESTOU VIVO E ESCREVO OBRIGADO

Obrigado ao António Ramos Rosa: ao Sol maior do "círculo de Festa" da sua poesia, ao traço selvagem com que me inventa um Endoespaço, aos nomádicos instantes de aguarela. A sua poesia vela, verso a verso, o meu horizonte na espacialidade do vivido. Obrigado, António Ramos Rosa: pelo círculo azul de uma casa em devir como Ocupação do Espaço: espaço do tempo, raio do mundo eis uma poesia, onde, como relâmpago de assombro, residirei sempre. Obrigado Professora Doutora Isabel Clemente, o tesouro de um filão de afecto, a sua presença, o seu fundo fundamento para acreditar que será sempre demasiado cedo recomeçar a morrer. A minha Professora de Estética, que me deu a ver o céu de carpaccio, o belo de Platão contra os escolhos cavernosos, a cognição sensível e a cognição entusiasmada. A minha orientadora na filosofia e na vida. A minha amiga até ao subterrâneo infinito que me consagra na vísível certeza de um puro espaço onde redesenho o mundo do alento. Obrigado amiga Professora Doutora Isabel Clemente por ter-lhe dedicado a minha Tese. A Maurice Merleau-Ponty, ad infinitum, in memoriam, a tarefa da sobre-reflexão de uma latência ardente nos arabescos do desejo, nos ângulos da carne e da coexistência. Obrigado a todos os que trouxeram com a sua presença a emoção da partilha à volta do espaço de fissão da Poesia de Ramos Rosa, propagarando na genorosidade dos gestos o núcleo fraternal da sua Poesia (Pai- Mãe porque não estando estavas e estás/estão sempre, Mano- mana que não estando estás/estão sempre, Soraia, Margarida, Constança (o devir das crianças legentes de Ramos Rosa), Ruí Cecílo, Antónia Rosa Ramos, Patrícia de Bastos, Inês Nunes, Gisela Ramos Rosa. Obrigado a todos os outros presentes. Obrigado a todos os que ausentes sei que não estando estavam/estão sempre.........).
Obrigado ao brilhante painel de Júris que engrandeceram e validaram as implicações que fui capaz de suscitar com o meu estudo:Directora do Curso De Mestrado Em Criaçãoes Literárias Contemporâneas, Presidente do Júri, Professora Doutora Antónia Lima, Orientadora Professora Doutora Cristina Firmino Santos, Co-Orientador Professor Doutor José Bettencourt da Câmara. Obrigado à extaordinária e sempre rizomática, arguição do Professor Doutor Carlos Couto Sequeira Costa (agradeço também os Traços sobre o Traço para o Doutoramento sob o signo de António Ramos Rosa): A unanimidade na atribuição do muito bom translado-a para o sortilégio da unanimidade da extraordinária Obra de António Ramos Rosa. Obrigado. Este dia é Ramos Rosa (O6/O6/2008) " Porque em ti o mundo se redime e toda a magia é a realidade da palavra"(António Ramos Rosa).
luís filipe pereira

quarta-feira, 4 de junho de 2008

PARABÉNS ANTÓNIO RAMOS ROSA: Que Privilégio estar nas vésperas de defesa de Tese sobre a sua Obra


PRÉMIO DE POESIA DO NÚCLEO DE ARTES E LETRAS DE FAFEATRIBUÍDO A "ROSA INTACTA", DE ANTÓNIO RAMOS ROSA O livro Rosa Intacta, do poeta António Ramos Rosa, editado pela Labirinto, foi o vencedor da primeira edição do Prémio de Poesia do Núcleo de Artes e Letras de Fafe.O Prémio foi como forma de homenagear, promover e divulgar este género maior da literatura portuguesa e destinou-se a galardoar o melhor livro de poesia submetido a concurso e publicado entre 1 de Janeiro de 2ca006 e 31 de Dezembro de 2007.O Júri integrou o Professor universitário João Amadeu Oliveira Carvalho da Silva, João Ricardo Lopes, em representação da entidade organizadora e Fernando Pinheiro, em representação da Associação Portuguesa de Escritores.Presidiu, em representação do Núcleo de Artes e Letras de Fafe e sem direito a voto, nos termos do regulamento, o presidente da Direcção, Artur Coimbra.Analisadas as setenta e duas obras concorrentes, provenientes quer de Portugal, quer do Brasil, o que foi devidamente relevado, o Júri deliberou, por unanimidade, atribuir o Prémio à obra Rosa Intacta, de António Ramos Rosa, "considerando tratar-se de uma poesia cheia de beleza, marcada por um erotismo depurado e maduro, onde se evidencia uma mestria com que o poeta trabalha o corpo e a nudez feminina, através de uma reconstrução incessante da perfeição dos seus modelos".A entrega do prémio, no valor de 2 000 euros, será feita em data a designar oportunamente. António Ramos Rosa é um dos poetas mais importantes da nossa contemporaneidade. Nascido em Faro, a 17 de Outubro de 1924, a partir de 1962 instalou-se em Lisboa, vivendo exclusivamente da literatura, opção que levou Bernard Noël a considerá-lo o "Francisco de Assis da poesia". Poeta reconhecido, traduzido e premiado internacionalmente, recebeu já inúmeras distinções, como o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (1980), o Prémio PEN Club (1980), o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1989), o Prémio Pessoa (1988), o Prémio da Bienal de Poesia de Liège (1991), o galardão Poeta Europeu da Década, atribuído pelo Collège de LEurope (1991), o Prémio Jean Malrieu (1992), entre outros. É condecorado como Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada em 1984 e com a Ordem do Infante D. Henrique em 1997. Em 1999, sob a égide das comemorações dos seus setenta e cinco anos, foi anunciada a criação em Faro da Casa da Poesia António Ramos Rosa. A 17 de Outubro de 2003 foi agraciado com um Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Faro. Criador incansável e genial, autor de obras únicas desde O Grito Claro, o seu primeiro livro em 1958, escreveu mais de oitenta livros de poesia, para além de uma impressionante participação no domínio do ensaio e da tradução.