quarta-feira, 10 de junho de 2009

AGORA EM MEUS DEDOS ONTEM

(dedico este poema à Professora Doutora Isabel Clemente)
Imagem: E.Hopper
Do mar recebi, mansa como a maçã sobre a mesa,

uma epístola a franzir o farol fiel dos meus medos.

Cerrei a casa. Voltei para o centro da carne as cortinas.

Como versos as descosi depois. Agora, no seco sabor

em mim dançando, dedilho a rebentação das roídas

margens: de folhas, como feixes de dores e de esquinas,

em que espreito a cerzida derrocada das espumas.

Fechei o vento. Depois o vidro. O farol fiel estremeceu-me

as têmporas. Tenra, a maçã balança na trança epistolar:

agora é apenas a mesa e o medo: crepúsculo contra o crepúsculo.

No puro arbítrio das águas preparei no sangue a batalha.

Na polpa dos dedos tresleio agora o pretérito porvir de tudo.

Banhei-me no mar, lento levantando-me nas macieiras,

e ávido arredando-me dos baixios, para que um sol de bojo largo

permanecesse hausto e haste, agora e ontem, no lugar de sempre.
luís filipe pereira

domingo, 31 de maio de 2009

LARANJAS DE MAIO (dedico este poema a todos os que vieram até ao meu blog colher os frutos de maio)

imagem de joão Werner/2006


Amanhã

Quando vier o vento

Deslizar na ave de água

Adstrita à madrugada

Seguirei o som das laranjas
Sob o sol macio de maio


Amanhã

Quando cair a janela

Como folha desfeita

Na foz dos dedos

Encontrarei nas ervas

Uma jangada de verdura

Afagando-me os joelhos

Ficarei com os fios dos jardins
Amá-los-ei no poema com os periféricos
Pulmões dos nomes
Dóceis de árvores


Amanhã

Entre os gomos do mar

Cerca dos corais das laranjas lentas

E os polegares

Que inclinados no ígneo vento da voz

Irão percutir

Pingo a pingo

O bando de águas

Que virá beber

Nas cascas vazias

Dos meus bolsos
luís filipe pereira

quarta-feira, 20 de maio de 2009

VERDE FOGO DE FRUTO

imagem:
Magritte, «filho do homem», 1928




Árdua arde a árvore
Inclina-a o vento
Por detrás da língua


Estes versos são uma flâmula diluída
E dentro da lava verde vejo ao longe
Purpúreos os pulsos
Iguais a vespas requeimadas
Felizes de ser tão fácil o fogo

Peguei nos ramos e nas metáforas dos rios
Molhei-os com elas e neles fui escrevendo os frutos
Nos hortos húmidos da palma da mão
Nessa pátria de lume de palavras e pálpebras


Dentro do incêndio
Sou sangue incólume
Labareda ladeada pelo vento
Em que ocluso é o verso
Num sempre oblíquo
E sequioso olhar
luís filipe pereira

segunda-feira, 11 de maio de 2009

UM RIO EM MEUS OMBROS

IMAGEM: Henri Cartier-Bresson, 1952/Paris




dedico este poema à Poeta Fabrícia Muniz


Neste ombro de rio
Germina a noite as suas estrelas
Agarro-as com a lenta mão da chuva
Em cincos dedos doridos
de chumbo

Uma omoplata de água num arame
Que ondula e me oferece impalpável
O pulso

Neste ombro de rio
Que ponho nos meus ombros
Eu transfiro a traqueia do vazio

Mas a mão vê como um nervo mudo
Que nenhum rosto resta rente ao espelho
Quando esvoaça o alcatrão rumo às estrelas
Com a violência de um vulto
De uma vértebra
Que bóia vacilante na minha boca
Como um vagaroso círculo

Só neste ombro de rio
Na radícula de sede dos meus ombros
Livres límpidos
Lestos para a cinza
Coada no paladar da noite
Encontra a mão a memória na água inclinada
Subindo no que sobra de luz e de lume:
Torrões tardios como um tiro

luís filipe pereira


terça-feira, 28 de abril de 2009

BRANCO



cor da espera. das montras entaipadas. da mudez de um porto
submerso.
halo. bandeira despintada em peito aberto numa secura de esterno que não sangra.
roda.
roda do sono mais roda do que sono.
cor da extenuada tentativa de reter o riso num retrato onde se mede a distância.
o silêncio requeimado num estio de veias.
punção.
um solo de piano arranhando o contorno de um «por enquanto», o contorno
do som de uma lâmpada.
cor fria do que em nós carece de rima na linha estreme que é a véspera de dedos.
do que em nós carece de um grito. ou de um remo.
cor da ausência dos dias longos que marcavam no odor das atérias uma lua.
uma aritmética de ternuras com os números interiores da água.
branco.
essa cor do monólogo do remorso e do limo: a imobilidade.
branco.
os fios encontram o seu interior. cosem-nos enquanto a sombra é o peso
de continuarmos à espera.

luís filipe pereira

segunda-feira, 30 de março de 2009

Próximo dia 4 de Abril, apresento no Porto livro que prefaciei

O lançamento do livro "Diários" de Goretidias, que se realizará no dia 4 de Abril, contará com o acompanhamento musical do Quinteto de Metais do Conservatório de Música do Porto, sob a direcção do Maestro Rui Brito. A apresentação da obra ficará a cargo do escritor e Mestre em Teoria da Literatura Luís Filipe Pereira.

(local: quinta juvenil de joão bosco contumil perto de Campanhã, Porto, Portugal, 15h).

quarta-feira, 18 de março de 2009

LUAGRAFIA DOIS

imagem:
helena almeida



- talvez uma boca. o casebre cansado de uma boca devoluta. a insânia de um grito espumejando a sua indivisa sede. talvez a obscena mendicância nas esquinas roídas das ruas: uma lábil sanguinária para aguarelar um abrigo de lua na alvorada da noite?



na parede, um quadro: ramos curvilíneos derredor de uma fresta de mar, talvez também o borrão de um pássaro, ou talvez uma redonda penugem de lua aguada. os ramos melancolizados, como que teias frondejantes de tresmalhação.dentro dos troncos há igualmente um mar: seu viúvo desvario de desperdícios, seu comestível sargaço, sua vazão. possessos de esquecidos protestos, sem palavras nem cor, há uma parede, há um quadro, há um mar. aos olhos, espiados pelo quadro, responde o mar:


- entretanto há o mar.


entre tanto e tão pouco, os ramos insinuam-lhe uma duna compacta, crescendo para dentro dos veios da folhagem a parecer um arbusto. os olhos fitam a impertinente cinza, os lenhos sifilíticos no lugar de frutos. do quadro ausentes, respondem os frutos:


- há sempre outra coisa angulada a escapar aos anzóis do esperado. o lugar interior da expectativa é sinuoso, abandona nas mazelas de cada esquina os morosos intermediários.


noutro quadro, derredor do cortinado descendo o estuque, encavalgam-se postigos de desgarramento: fiascos industriais a silenciar o cavo chilro do esquizóptero pássaro, do outro quadro, o terceiro, à mão direita do cortinado: chifres antropófagos desmedindo-se dos prédios: varandas com vassalos crisântemos: varejeiras e taipais: cimento cal areia e saibro. eis a janela até ao limiar do grito soterrado nos olhos que percorrem telhados e a lua de esguelha.


súbito um avião a ressumar estrias de espaço, a furar o verniz das nuvens e logo a acetona do esquecimento a macerar os olhos com a lâmina do tempo.um compasso de espera. um compasso de queda no cavo entretanto de um mar.


talvez uma lâmpada a romper do asfalto. talvez um miradouro também.avessos à domesticidade, os olhos precipitam-se. liquefazem-se. intumescem. precipitam-se, ainda só na plataforma daqueda.os postigos permanecem presos às ruas. as trelas atam as rotundas umas às outras. os tejadilhos também idênticos. outros vidros igualmente pegados aos caixilhos com massa de arenito, com óleo de linhaça. vielas e becos nos hiatos doutras vielas e becos. a mesma lua:impenitente. talvez olhos parecidos, também inspeccionados por paredes e quadros, a sangrarem nas águas-furtadas das memórias, a esperarem um tempo tornado breve. iguais beijos no engate infeccioso sob as nuas árvores. encapuzados sigilosos. meias de licra preta no lugar dos rostos. outras luas assimétricas no pardo lugar dos olhos de animais, incontinentes de cio. reconhecíveis lucilações: a caligrafia misantropa do suão e dos poetas, o dominó das calçadas.


surdo grito talvez: liberdades iminentes a carregar a solidão.perguntam os olhos:


-quanto pesaria a queda do teu corpo

se nela cabe somente o mar?


perguntam os olhos:


- poderá o dia, passada a lua, reconvalescer de um glaucoma mais exacto que a vida?


luís filipe pereira

terça-feira, 3 de março de 2009

MINHA LEITURA DE UM POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA PUBLICADO NA REVISTA AUTOR

http://revistaautor.com/index.php?option=com_content&task=view&id=389&Itemid=1

Convido, pois meus afectuosos intertetuantes e amantes como eu da Poética de António Ramos Rosa a acederem, por via deste link, ao meu artigo - leitura de um poema de Ramos Rosa inserto na obra O Sol é Todo o Espaço - publicado na Revista Autor.

luís filipe pereira

sábado, 28 de fevereiro de 2009

UM PRODIGIOSO ECO d'A TELA DO MUNDO DA ESCRITORA MARIA SATURNINO

Lendo “A Tela do Mundo”

Leio e releio e, então, me enleio
Nas perplexas sendas das imagens verdadeiras
Apalpo, toco, e sinto
como cada incisão é fria e fulgurante
E como é indeciso o contorno de germinal analogia

Vejo, revejo mas não ensejo
Saltar o muro e a ponte no fôlego maculado e aberto
Da pedra que respira rompendo a página do vazio
Da volúpia em que vertical
O mundo se inicia


Escuto e não oiço
Procuro e não entendo
Os silêncios golpeados
Da obscura luz que devagar desce
Infinita o oblíquo bosque inclinado
Rente ao rasgado biombo do invisível.

Porque não tenho a adaga que atravessa a balança
Porque não tenho o corpo atalhado a outro corpo
Porque me perdi no espaço dos extremos intervalos do abismo
Porque…


Maria Saturnino
28.02.09