
Declinam em gotas os teus passos?
Tu conhecias as casas habitadas pelo som das chuvas. pelo ruído das lágrimas onde o choro de quem se ergue torna mais subtil o som das águas. tu erguias-te e as agulhas do teu sangue limpo cosiam as agulhas dos pinheiros. querias atingir o mais longínquo.
Vejo-te no espelho deste vidro. vejo-te subir o estuário das ruas e da noite: és barco de água parada na brusca aceleração do espaço em que estagnam as esculturas.
Tu descobrias nas paredes das casas um fio de água como um fio de tempo e por mais passos luminosos que escorressem numa perseguição de anzol tu sentias como a vida se entorna veloz e inteira sobre uma folha de aço. tu vias a fosforescência das células em tantas células sobrepostas. as reproduções de ti próprio modalizadas por rectângulos de nitrato de prata.
Se te ergueres acaso grita a mudez do teu retrato?
Tu aprendias com as sombras. com os seus estilhaços. não tapavas a cabeça para recompores a sombra conhecida da ácida solidão dos corredores percorrendo-te até ao fim do mundo. até ao fim das chuvas manchando de aragem os pinheiros. só o vento te esticava as pálpebras e os braços nessa vigília das chuvas. no entanto caminhavas.
Para que chuvas de ir rumam os teus passos?
vejo-te no meu pensamento quando desvio os olhos do vidro. nele esgueiras-te e desandas e nada perguntas do que de mim se extingue na superfície do espelho. no meu pensamento há um pinheiro pesando-me de verdes desabrigos e chamo ir a esta janela virada para ti enquanto os meus olhos tracejam o modo de delimitar esta chuva. este rastilho de água a continuar a negra sede
do homo erectus?
luís filipe pereira