(Este meu poema acaba de ser publicado na Revista de Poesia Saudade: n.º 11, Junho, 2009. A oportunidade de voltar a colaborar em tão prestigiada Revista surgiu do convite do Poeta António José Queirós, director da mesma, a partir do seguinte repto temático: O Azul. Além do poema que aqui partilho com todos os meus generosos leitores e intertextuantes, permito-me destacar a colaboração neste número da revista de Poetas como Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, A. Cândido Franco, António Salvado, Fernando Grade, Fernando Pinto do Amaral, João Rui de Sousa, Jorge Reis-Sá, Luís Quintais, Pedro Sena-Lino, Pompeu Miguel Martins, Xosé Lois García, entre vários outros)
Correm-me os ossos antes do cristal
e da fuligem
Desaprendo o meu rosto na fronteira
do espelho
em que lavam os homens o sorriso
ou outra coisa que não a face.
No fémur no esterno da página de mim
encontro um animal fulminado,
sua azul cartilagem de extinto hélio
exposta igual a ninhos de aço
Os ossos a trote num vão retardamento
de galope
fervem no cálcio calcinado
de faíscas
de fisgas
de relâmpagos.
A luz ausenta-se do espelho
esquia a seara
alçando-se na incerta parte
do fogo que usurpa a noite pela casa
O tempo azul recua em mim
caranguejo a cegar os meus passos
Submeto-me às suas inclementes paliçadas
às suas garras
às suas jaulas.
Se os ossos trepassem os caules
emboscados pelo vento
apodreceriam os frutos
num celeiro de carne
numa eira de cinza
ceifada por muros
por musgos.
Herdei os ossos e com eles a morte
para nela habitar
no horizonte das lajes em que os ossos
por muito que corram,
cavalos a subirem-me as entranhas,
já não projectam a cor audível
de uma sombra.








