ab inicio:
o ovo. no início era o canto verbal dos pássaros. couraças leves de longas cotovias. os pássaros e a pele pernoitavam em uníssono. do canto desnudo precipitaram-se calcárias praias. algas e guelras. pálpebras e peixes. peixes que eram falésias fluviais construindo o corpo de frestas dos corais. devagar adormeciam nos dias os libérrimos cavalos. as crinas ao sol. o trote da sede. cavalos de vento no lugar dos lábios. a gazela dos instantes inchavam nos olhos de gelo dos tigres tardios. cinturas de cio. gatos brancos de pierre bonnard juntavam-se ao jogo e ao grito. o ciclorama da noite acrescentava os galos.
intermezzo:
açougues de assombro até à amestrada náusea: o circo. o elefante e a memória do início bocejam nas jaulas. os papagaios duplicam vozes de palhaços duplicados nas gaiolas. ad infinitum das varandas. aprumam-se os ardilosos pavões das prisões. a pele sangra. o bestiário à beira do abismo. o inventário da caça. a cal das ossadas de sombra: o sujeito e o objecto.
luís filipe pereira
