quarta-feira, 21 de maio de 2008

Do Lido e do Visto, "Arte poética" de Daniel Faria (Quasi Ed.) & Magritte

"A palavra despe-se

O silêncio despe-se

Nus

Os sexos ardem

Os seios da palavra

Os músculos do silêncio

O silêncio

E a palavra

O poeta

E o poema" (Daniel Faria)

a palavra percorre os sentidos. mergulha na margem da carnação sem destino. tacteia sem perguntar para troar a pele no seu langor de lâmpada. a palavra nua frequenta o domínio encantado e suporta na luz dos seios a pausa de sede entre dois sons. como achas os sexos segregam nos corredores da noite suas luzes vacilantes como versos. versos sobre ventres. sobre trompas de silêncio. o poema é uma pele encontrando outra pele que nela se abriga. o poema e o poeta: duas mãos que migram palavra a palavra. músculos descaindo para a cintura até à nua linha do osso nítido onde escreve uma esquírola de desejo o esmalte dos degraus alçados pelas despidas palavras.

luís filipe pereira


quinta-feira, 15 de maio de 2008

Do Lido e Do Visto: Poema "De Bombordo a Estibordo"de João Rui de Sousa (in Quarteto para as próximas chuvas, D. Quixote, 2008)& Vieira da Silva

" E navegavam
- tal como em tabuleiro de xadrez já muito gasto". e por vezes o tabuleiro, depois do marfim misturado, dura além do assombroso anoitecer das mãos concentradas em manusear o claro-escuro das peças da conjugação do mundo. lentas as mãos avançam "pela eterna constância das diagonais". num langor de sombra as mãos protegem na ávida solidão o taciturno rei. e levam a rainha a desplumar a esmo os espelhos invertidos nos olhos de silêncio do outro jogador. a rainha mais veloz do que o trote vesperal dos cavalos.os dedos gastos empurram os esgotados corpos dos peões. corpos cravejados pelo veneno da insobrevivência. despedem-se sem um silvo e rolam rútilos sobre as margens lôbregas da mesa. reerguem-se as torres. "torres rectilíneas, vigilantes, /abrindo em suas trompas o seu espaço". os esgarçados dedos nelas pousam o plinto do apelo dos peões esmagados. as mãos ascendem no tabuleiro ardente. efémero como um compadecido trapézio de treva no ondeio das peças cada vez mais desconjuntadas. crescentemente o mundo é o mastro quebrado no baixio dos braços. nenhum fulgor sobrevive. ressuma o rastro de escória entre a vitória e a derrota. ambas estrelas mortas "de um tempo fragmentário, fustigante". sobre a mesa o tabuleiro vazio como um vulto bastardo sobrepõe-se à linha do mundo. troa a teia. as mãos arrastam o seu séquito de nada até aos bolsos e afundam-se na sombra àspera do sono. o mundo sobre a mesa recompõe as peças como golpes reclusos. a eles retornarão os jogadores que hão-de recomeçar. que hão-de revolver o lodo dos destroços com as mãos pacientes em demanda dos prelúdios de portos. os jogadores hão-de coroar o passatempo até que se convertam, "de bombordo a estibordo", aos alpinos ceptros alçados por pulsos de pedra.
luís filipe pereira

segunda-feira, 12 de maio de 2008

11 de maio de 2008 ou na resssaca de uma tarde prodigiosa: lançamento de As Vindimas da Noite

museu nacional de arqueologia. visíveis os vestígios. a filigrana dos gestos. os trilhos e as luminárias das vésperas redivivas. ânforas e diademas de silêncio. vasos de sede voltados para o tejo. mapas de singrar no tempo. moinhos de singrar no espaço em rotações remotas e deflagrantes. uma sala com a nobreza das nebulosas e do cinzel. com a dignidade ígnea das esquadrias afáveis (contra a retumbância da solidão dos barcos amurados na cidade) como manchas de elipses. ecoa a música e a memória feliz expande-se, andamento a andamento, pela luz fluvial debruçada no ciclorama das janelas. o piano e o violoncelo remam com o saxofone em duas canções de F. Sor. a guitarra de Ricardo Barceló estende a esteira do instante ao canto de José Corvelo. Na capa de Júlio Cunha do livro de Maria do Sameiro Barroso - As Vindimas da Noite - adormece um rosto que sonha socalcos de afecto ou vindimas entre as palavras e a penumbra de júbilo dos violinos. as pálpebras cerradas numa refulgência de portos escutam melhor os estuários calorosos do vinho derramado (são secretos corredores estróficos). o sonho crepita. a cal floresce. apresento o livro através de uma tetralogia de socalcos. a voz desmuralhada de Isabel Wolmar apanha os bagos dispondo-os na mesa comunial da poesia. o mar entra no tejo tingido do vinho ou os versos encontram o mar no seu bramir de bagos. de barcos. de brisa. os moinhos dançam (uma valsa de versos encontrados). o museu está vivo. (ouve-se o rumor secreto do ouro). o museu cada vez mais arqueológico. cada vez mais vivo alçado na festa dos poemas. no vocabulário dos encontros como uma vagens de búzios. assim foram as «palavras acesas»: "As vinhas eram rios vermelhos que, na louca/respiração da chama, ascendiam. /Nos jardins de absinto, a música ecoava, /em paraísos doces" (in As Vindimas da noite, p. 43). estavam descerradas as pálpebras do rosto sobre a capa. despertaram com(também os nossos e de todos quantos lerão este precioso livro de Maria do Sameiro Barroso) "os olhos acesos da segunda lua".........
(dedico este trecho ao Editor da Labirinto, João Artur Pinto: por permitir
os cursos das tábuas de mundo da poesia (por me ter convidado para o Conselho Editorial da Labirinto); à Maria do Sameiro: pelos aromas da amizade e pelos caminhos de neblina da sua belíssima poesia; ao Dr. Luís Raposo: por acolher a poesia num espaço nobilitante: aos presentes e futuros leitores do livro As Vindimas da Noite que abriga um meu posfácio)..............................
Luís filipe Pereira

segunda-feira, 5 de maio de 2008

AS VINDIMAS DA NOITE de Maria do Sameiro Barroso: um livro de poesia onde os as varandas dos lábios pousam nos versos lembrando o vinho



Lançamento de As Vindimas da Noite, domingo, dia 11 de Maio, no Museu Nacional de Arqueologia, às 17horas(apresentação minha e leitura dos poemas por Isabel Wolmar sob a nebulosa de afectos da Editora Labirinto)



As Vindimas da Noite. uma obra de poesia onde retumba o som do mágico mosto de uma criação noite adentro. noite de versos lavrados rente ao ouvido como epicentro de um lugar e de um tempo mais serenos e mais sedentos. abrigando e propagando os meandros da memória. versos tingidos de dulcíssimo vinho crescendo das luxuriantes videiras das imagens. da matéria das metáforas. onde florescem os protocósmicos vinhedos do mundo. Maria do Sameiro traz-nos uvas nas palavras. e coloca-as sobre o tampo do tempo. sobre a mesa das feridas fechando-se por entre os arabescos do silêncio.


nesta obra multiplica-se o vinho nas mesas comuniais da poesia.


entre a música e a memória tornam-se mais claros os tortuosos caminhos cavados em versos que cheiram a vinho. que sabem a vinho. e descem a noite até ao sol descendo a encosta das pálpebras. um livro onde a voz é clara e poliédrica cruzando artes e afectos respondendo-se e enleando-se. uma voz vínica e dionisíaca desferindo acordes insubordinados que um violino sustenta. porque os socalcos são a invenção dos vinhedos do início. por momentos de inebriante leitura ondula a ramaria do desejo de um arco. de uma aliança intérmina com o mundo. com as primordiais margens da luz golpeando a noite arborescente. a noite da criação numa pauta de aromas que perduram como lunações. aquecendo-nos como lábios os criadores labirintos da noite.


As Vindimas da Noite: um livro de poesia ou porque o sol no próximo domingo será mais música e será mais poesia. será mais perfume e será mais malvasia.___________________________


luís filipe pereira

quinta-feira, 1 de maio de 2008

A memória também é um guarda-jóias (dedico este fragmento à Inês Nunes)

os amigos: signos de uma límpida lâmpada. as palavras dos amigos: colares de afagos. amigos. os que nos marcam e nos tatuam com cálidas cores são um tesouro transparente. tão precioso. são um timbre de sílex. jóias semeadas e suspensas nos jardins da nossa pele. amigos: talismâs da terra iluminada. a memória é também um guarda-jóias onde cabem as delícias do alento. as torres de luz que nos levantam. os anéis que nos circundam os dedos como chamas de pontes. os amigos: diademas de gestos efémeros engastados nos diamantes do eterno. se nos morre um amigo morre-nos o poeta que escrevia girassóis nos nossos ombros. se nos morre um amigo morre-nos o sabor de um sorriso futuro. morre-nos um feixe. um figo. ou uma flor. se nos morre um amigo nasce-nos a verdura de um verso de minúcias e de memórias. nasce-nos uma pedra preciosa que permanecerá fruto fulgente. no guarda-jóias do coração transparente de tristeza. porém como aliança de viva alegria visitada e abrigada. tecida pelo tempo e na pele sob a pele tranfigurada..............................................................................luís filipe pereira

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Fragmento de um exercício de zoografeia

ab inicio:

o ovo. no início era o canto verbal dos pássaros. couraças leves de longas cotovias. os pássaros e a pele pernoitavam em uníssono. do canto desnudo precipitaram-se calcárias praias. algas e guelras. pálpebras e peixes. peixes que eram falésias fluviais construindo o corpo de frestas dos corais. devagar adormeciam nos dias os libérrimos cavalos. as crinas ao sol. o trote da sede. cavalos de vento no lugar dos lábios. a gazela dos instantes inchavam nos olhos de gelo dos tigres tardios. cinturas de cio. gatos brancos de pierre bonnard juntavam-se ao jogo e ao grito. o ciclorama da noite acrescentava os galos.

intermezzo:

açougues de assombro até à amestrada náusea: o circo. o elefante e a memória do início bocejam nas jaulas. os papagaios duplicam vozes de palhaços duplicados nas gaiolas. ad infinitum das varandas. aprumam-se os ardilosos pavões das prisões. a pele sangra. o bestiário à beira do abismo. o inventário da caça. a cal das ossadas de sombra: o sujeito e o objecto.

luís filipe pereira

sexta-feira, 25 de abril de 2008

entra. senta-te sobre o lume dos livros (sobre um quadro de Menez/fragmento)

entra. regressas da noite das portas apagadas.

entra.

franqueia as franjas do crepúsculo faminto.entra.

regressa à resina reluzente nas lombadas. como escama. como estrela.

sentes a fragrância a florir nas palavras?

então entra.

navega no navio silábico dos livros sonolentos escritos em segredo. entra nos insones segredos dos livros ainda não livros. dos livros lavados no lume do esquecimento.

entra e espreita as frases em flor que já não podes colher.

adormece.

empurra as portas com os dedos do sono percorrendo os nomes devagar. despe-te da voz que pudesse pronunciá-los. senta-te à beira da boca ao rés da resina. senta-te à beira das labaredas dos livros aquecendo-te as ancas como lânguidos anjos.

entra. afasta as portas e pernoita nas planícies do abandono.

entra e deixa que te leiam os livros. entra e despe devagar os lábios dos livros.

pernoita lá dentro. como os pássaros. entra.

....................................................................................................................... entraste?................................

luís filipe pereira

terça-feira, 22 de abril de 2008

sótãos de salutar solidão (fragmento que dedico a Gisela Ramos Rosa)

"E todos os espaços das nossas solidões passadas, os espaços em que sofremos a solidão, desfrutamos a solidão, desejamos a solidão, comprometemos a solidão, são indeléveis em nós. E é precisamente o ser que não deseja apagá-los. Sabe por instinto que esses espaços da sua solidão são constitutivos. Mesmo quando eles estão para sempre riscados do presente, doravante estranhos a todas as promessas do futuro, mesmo quando não se tem mais o sótão, mesmo quando se perdeu a mansarda, ficará para sempre o facto de que se amou um sótão, de que se viveu numa mansarda. A eles voltamos nos sonhos nocturnos. Esses redutos têm valor de concha." Bachelard, Poética so Espaço..........................................................................

sótãos. estranhos e mágicos recessos de epifanias. alpendres invertidos soerguendo-se na surda música da respiração. um álbum esquecido torna-se vivo. o pó que esvoaça das gavetas subterrâneas late em júbililo quando o percorrem os dedos aracnídeos e nele riscam revoadas de arabescos. linhas. mapas do corpo. espumas de conchas. sótão. ermo coração da casa arfando nos gestos que escutam um texto desconhecido. sótãos para experimentar o infinito num mínimo acto de melancolia. sótãos de aventura quando a casa e o mundo adormecem como um barco à deriva numa consentida espera das vagas ciciando o eu do eu do eu na lucidez de um espaço umbilical que amanhece nos orifícios da noite. da pele. da tela em branco. sótãos-cais. sotãos-centros em que realmente nasço na luz da comunicação para além da comunicação humana. comunico com as traves. com os ninhos sonhados. com as conchas folheadas no sortilégio de um poema a escrever-se sobre os degraus dos meus joelhos. sótãos nos confins do enigma onde ecoam as notas da infância de um piano ausente-presente. tocando em surdina notas de serenidade colhidas nas linhas infinitesimais de um lugar mínimo tornando-se mais lugar do que todos os lugares. sótãos-mundos. sótãos que são exímios sítios da lonjura de mim. atraídos por um traço maior. um verso mais iluminado do que o frio lóbulo de uma lâmpada. sótãos-olhos rolando para a memória do desconhecido. para os olhos das conchas entrabertas. para os arquipélagos da intimidade que são o lugar imóvel do vaivém da tristeza. mas onde a seiva do ser alastrando sótão adentro permanece em nós aprumando-nos as asas. as imagens não decepadas que são promessas de regresso ao eu do eu do eu. que retorna ao soalho flutuante como casco nu embalando a partitura das muitas vozes da nossa voz saboreando o medo no abrigo silente dos sótãos-fronteiras. dos sótãos-passagens. conchas labiando dentro de conchas. corais que proliferam no único lugar de solidão onde é impossível estarmos sós. sótãos-respiração. sótãos que nos respiram quando fechamos os olhos e prometemos regressar ao nosso lugar unitivo........................................luís filipe pereira

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Eco de leitura. do (excelente) livro de Rui Nunes, Ofício de Vésperas, Relógio D'Água, 2007 (fragmento)

Ofício de Vésperas: ofício de escrever o halo de lugares. lugares do abandono e da estranheza. lugares dos avessos da criação: lugares de vésperas e das vésperas. da inclemente iminência da queda. da perda. da morte futura no presente dos mortos devolvendo a cegueira ao nosso olhar. lugares sem deus ou lugares da sombra de deus no limiar do seu nome inomeável. lugares do remanescente. dos recessos do resto. o que (nos) resta? sermos "guardiães do abandono". lugares do enigma entre a inconfidência dos segredos e dos destroços. lugares frequentados pelo olhar além da sede irradiando desde a casa (do livro) como eminente/iminente "lugar do esquecimento". lugares incicatrizáveis e tatuados de nódoas (negras/a negro), aí "onde a morte recomeça". lugares que leio junto à evocação do ler/ver o quadro de van gogh Seara com Corvos onde o caminho do campo (heidegger) leva a nenhures. caminho vingativamente debicado pelas desorientadas e vespertinas asas dos corvos retalhando a muda seara. tavez "com uma fome cheia de rancor". caminhos/topoi que se transportam ao longo das esquinas corroídas da escrita para as orlas do exílio. linhas de fuga ou "placas toponómicas num país estrangeiro". talvez seja na figura do eremitério no ávido árido deserto dos nomes e dos rostos que se espacializam as margens de estranheza do livro a escrever. da palavra a pronunciar. e para sempre impronunciável. palavra-cardo. palavra-sede-sede sem oásis prometidos ou consolos terminais. sem fontanários paliativos. sobra a inevitabilidade de pensá-lo com as mãos e as frieiras estiolando os dedos e sobra na circularidade invertida do fim-princípio a impossíbilidade de senti-lo: "como Deus o era para Kant". lugares interminavelmente vésperas do incansável "trabalho da ruína". lugares cercados. onde "a luz é um cerco" que clareia apenas a mutilação dos contornos e a inevitabilidade dos despojos. lugares da condenação à errância de nós. de um nós anónimo ou pelotão de "emigrantes clandestinos" nas vésperas do fuzilamento. lugares de encontro do fundo e irreparável desencontro. "simples encontro de uma dor com uma dor". lugares de fronteiras. de limbo. de hiato. de desbussolados caminhos ao longo dos quais se percorre o convulsivo esquecimento. porque "a memória é um tempo desavindo". lugares estilhaçados no estilhaço de desenhos rasurados pelas vésperas do medo. porque "é tão breve a pausa do sentido"...................................................luís filipe pereira...........................................................................................................................................................................

sexta-feira, 4 de abril de 2008

"Para crescer, o corpo tem de ser uma mala de viagem" (in Capricho 43 de Carlos Vaz)


o título está inserto no fantástico - criadoramente llansoliano - romance capricho 43 de carlos vaz. o corpo cresce fazendo e desfazendo os instrumentos que animam a demanda de linhas de errância. cresce com os músculos textuais que o vão robustecendo contra a impostura do medo e a tirania dos príncipes imobilizados sob o fardo cego do poder. os príncipes não viajam. a mala está sempre meio cheia meio vazia dos racionais estratagemas e ardis insidiosos que castram e desmantelam o sonho. os príncipes não crescem porque não têm medo ocupados que sempre estão em provocarem o medo para prepetuarem as águas separadas dos que detêm as chaves artificiais do texto em relação aos que ousam a viagem com a chave cega que franqueia os abismos e a insânia e não cessam de crescer. não cessam de arrumar a mala da trajectória sem meta definida. não cessam de procurar a parte louca do mundo que é a restante metade que dá intensidade textual ao crescimento. crescem porque acreditam que as histórias de contar da Mãe são o forro figural da mala de viagem. crescem porque aprendem a vencer o medo e não temem o incessante esvaziamento da mala para lhes ser mais leve a viagem. e não temem os monstros que a razão goyesca sonha. e não temem vagabundar à deriva noLetes. e agarram-se aos lençóis do afecto para a navegação do tanque de cimento que há-de velejar nas águas do texto que arquitectam as ilhas. as singularidades de sermos no espaço-tempo intersticial das metades e dos hiatos. ilhas de temor. ilhas deslumbradas. ilhas de lava textual. ilhas de memória. de terra firme. o homem-que-separa-as-águas há-de osmosear a gravidade de newton e a contragravidade da arte. separa as águas para unir no caudal da monstruosidade figural o leitor e o escritor. o legente e o escrevente. ilhas encontradas sob a protecção da corda da Mãe comunial. que estende as roupas textuais de ambos para que cresçam os corpos sempre que partem protegidos pelos nós da afectividade. levar este livro na mala de viagem é lavar a roupa suja e gasta do intranscendente quotidiano. é levar nos dedos. na pele. no córtex o prisma das cores refractando-se como corda estendida sobre o abismo do texto. é levar o tanque de cimento como o barco que nos cabe no devir da infantilidade rumo à maturidade e vice-versa como unidas metades ao longo da corda que vai de um lado ao outro. de ilha em ilha. de novelo em novelo.de mala em mala. de viagem em viagem. eis o crescer do corpo.