sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A TELA DO MUNDO: NOVA DATA, NOVO LOCAL: 6 de DEZEMBRO, 17h, MUSEU DO FADO


A Tela do Mundo
Por motivos que me são totalmente alheios e, como noticiado pelos órgãos de comunicação social, ocorreu o encerramento da que era propalada como a maior livraria do país,a livraria Byblos, situação que me apanhou totalmente de surpresa, obrigando-me a alterar o dia e o local do lançamento do meu livro A Tela do Mundo para o Museu do Fado (Largo do Chafariz de Dentro, n.º1, Bairro de Alfama, Lisboa), dia 6 de Dezembro, às 17 horas.
Com um renovado entusiasmo e desejo que venham partilhar o nascimento da obra A Tela do Mundo, reitero o quanto me honra contar com a vossa presença.
Caros amigos, caros intertextuantes, agradecendo a todos as manifestações de amizade, de interesse à volta do meu livro A Tela do Mundo (postadas no item abaixo), venho, com renovado prazer e reverdecente expectativa, convidá-los a todos,
convocar-vos para o lançamento da minh'A Tela do Mundo, quase ferida de morte por quem não honra compromissos, pois fui tão apanhado pela "bomba" do fecho da Livraria como todos vós e cujos estilhaços me perfuraram por dentro: o ânimo, a vontade.
Porém gestos generosos como os vossos, mensagens de múltiplos quadrantes de apoio e incentivo, respeito e convicção pela qualidade do meu livro, pelas pessoas que tanto se têm empenhado em planear e sonhar o seu evento (a produção de imagens prodigiosa de Inês Apolinário, o empenho da criadora de jóias contemporâneas Inês Nunes, da Mónica Cunha, da Cíntia Gonçalves, a colaboração de vários artistas plásticos , da Direcção da Cultura da Câmara M. de Lisboa, na pessoa, minha amiga, de Drª Laurentina Alves P, da Directora do Museu do Fado, Drª Sara Pereira, da Professora Doutora, minha amiga de e para sempre Profª Isabel Clemente (autora do posfácio da obra) e que fará a apresentação do meu livro, de tantos outros (obrigado Fernanda Apolinário, Dionísio Dinis, Goreti Dias, Doutora judite Fidalgo, Mel de Carvalho, Laura Gil, e todos, e tantos outros),
porém, dizia-vos, toda essa dinãmica ditou, com a força de um kantiano imperativo categórico, que o meu livro será lançado, num espaço lindíssimo, num evento que será, estou certo, maravilhoso: com um prelúdio musical de três guitarristas exímios (Isabella's Bop), com a apresentação de uma especialista maior em filosofia/estética e história de arte, com a leitura polifónica de poemas do livro tendo por fundo a projecção de imagens que serviram de rampa à construção poemática, com um fecho sublime protagonizado na guitarra portuguesa por Luísa Amaro (companheira de vida e de palcos do saudoso Carlos Paredes) e do primeiro clarinetista Gonçalo Lopes, que interpretarão uma composição inspirada nesta obra A tela do Mundo.
Depois haverá autógrafos e, sobremaneira, as dedicatórias sinceras e gratas que quero deixar nos vossos livros, que serão a vida do meu livro, e, finalmente, um beberete oferecido pelo Museu do Fado.
Sei que comprendem, com o coração, que a situação ocorrida não me torna merecedor de uma penalização, ou melhor, da falta de pessoas que tanto faço questão que estejam presentes.
A Todos agradeço. A muitos, desejo e acredito, até dia 6 de dezembro no Museu do Fado para co-celebrarmos o nascimento de A Tela do Mundo.
luís filipe pereira

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

LANÇAMENTO DO MEU PRIMEIRO LIVRO DE POESIA: A TELA DO MUNDO

A Tela do Mundo, livro de estreia de Luís Filipe Pereira nos meandros da poesia, propõe-nos um diálogo entre a palavra poética e um conjunto de pinturas e pintores contemporâneas (de Vieira da Silva, Antonio López, Helena Almeida, Miró, Chagall, Cézanne, até aos desenhos do Poeta António Ramos Rosa, Graça Morais, Frida Kahlo, Tàpies, Júlio Resende, Paul Klee, Edward Hopper, João Vieira, Laura Cesana (uma pintura sua, expressamente realizada para o livro, dá rosto à capa idealizada como uma tela) Helena Almeida, De Chirico, van Gogh, Magritte entre vários outros).Um livro que explora o enlace ou concerto de duas artes: a poesia e a pintura, numa reinvenção da linguagem segundo o mote lançado por P. Klee para a arte moderna: "dar a ver o invisível" e convertido pelo autor de A Tela do Mundo em versos como:"O encontro dos lábios/ com a paisagem dos dedos". Este livro, como se tela em branco a ser pontilhada pelos sulcos de cor recriados pelo olhar dos leitores, nascerá no dia 29 de Novembro, às 18h45, na Livraria Byblos das Amoreiras, com apresentação da Professora Doutora em Filosofia/Estética A. Isabel Clemente (autora do Posfácio da obra), num evento pautado pela interartisticidade, pelo "encontro inesperado do diverso" (M. G. LLansol), por hibridismos de artes e polifónicos modos de dar a ver sob o signo do Poético em sua amplitude poiética e aiesthésica.
"Universo poético, rico, muito rico, que é preciso ir descobrindo, linha a linha, poema a poema, em que nos vamos deixando enlear e cuja magia persiste para lá da leitura." (Isabel Clemente)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

17.10.08: ANIVERSÁRIO DE ANTÓNIO RAMOS ROSA: O MEU POEMA PARA ANTÓNIO RAMOS ROSA

(António Ramos Rosa, Fotografia de João silva)


“Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre”
António Ramos Rosa, “A Paixão do Ar” in A Construção do Corpo




PARABÉNS ANTÓNIO: o olhar de Ramos Rosa





O olhar de Ramos Rosa incita à viagem nos interstícios do invisível
num esquiador silêncio mergulha até às entranhas da página
e instaura o quiasma intérmino das puras figuras
Rasgão e juntura ao rés da secreta espera e da ignota seiva
no caminho sem rumo
rumo à lenta casa do poema
O fogo e a água irisam-se nos socalcos do terrear
abrigam-se no traço do corpo que estua na paleta do olhar
então a mulher é o flanco da casa que pigmenta o horizonte
O olhar de Ramos Rosa sangra na lonjura de pedra de um animal olhar
imóvel vai até ao espaço futuro da fonte
buscar uma linha errante no azul aroma do sema da ferida
Invenção do domínio das cores a prumo
retina a retina
mancha a mancha
pálpebra a pálpebra
captando a carnal energia do espaço de uma liminar frescura.
Onde o saber deste olhar? Sabor aéreo sabor subterrâneo
umbilical perspectiva no pulso do olhar
que em si guarda as infraestruturas lídimas da paixão do Ser
O olhar de Ramos Rosa onde o gesto principia
e desenha o rosto da cinza sob o olhar do fogo
que dança irrompe na cavidade do ver?
que luz se completa na fenda selvagem?
que palavra nasce dentro desse olhar?
Rastro e astro de silêncio
olhar de sede
elementar
então o visível é a anunciação do invisível
no subtil desvio da mão como a origem entrevista



luís filipe pereira

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

(imagem:Filipa Amaral "Black and orange composition 02 with cuts") A CASA DO POEMA


A CASA DO POEMA
Qual comboio rápido nos carris espaçados
Entre foragidas aves a perder de vista e negras linhas do adeus
A casa vazia nocturna e vasta morde a ínfima espiral da memória
Como se respondesse à deslocação do verbo sob as unhas
Seus olhos dão-me um remo os meus dão-lhe a estilística do mar
Se descer as escadas ouço as aves a beber a lua amarrada ao poço
E vejo o gelo a atear o que escrevo
E devora-me a casa com o seu peremptório frio de escombros

Igual ao comboio rápida a casa partiu para só regressar por alturas da solidão
- Há um mar a arder por trás do muro
Uma flor a desabrochar negra asa cântico de morte
Sonâmbula liturgia na boca da noite -

Se descer ao silêncio despedaçam-se as varandas que alçam os ossos e a voz
E vejo o tronco do ar e tranco na minha garganta a sua sombra esguia
O caminho até à janela é a distância de uma palavra sublime fruto submerso voo
Cada parede cada esquina cada palavra cega tudo apeadeiros em fuga
Tudo divisões remendadas rasando os confins da morte na falha adiantada do amor

luís filipe pereira

sábado, 27 de setembro de 2008

IMAGEM: GIACOMETTI, L'HOMME QUI MARCHE SUR LA PLUIE/1948: CHUVAS DE IR




Declinam em gotas os teus passos?
Tu conhecias as casas habitadas pelo som das chuvas. pelo ruído das lágrimas onde o choro de quem se ergue torna mais subtil o som das águas. tu erguias-te e as agulhas do teu sangue limpo cosiam as agulhas dos pinheiros. querias atingir o mais longínquo.
Vejo-te no espelho deste vidro. vejo-te subir o estuário das ruas e da noite: és barco de água parada na brusca aceleração do espaço em que estagnam as esculturas.
Tu descobrias nas paredes das casas um fio de água como um fio de tempo e por mais passos luminosos que escorressem numa perseguição de anzol tu sentias como a vida se entorna veloz e inteira sobre uma folha de aço. tu vias a fosforescência das células em tantas células sobrepostas. as reproduções de ti próprio modalizadas por rectângulos de nitrato de prata.
Se te ergueres acaso grita a mudez do teu retrato?
Tu aprendias com as sombras. com os seus estilhaços. não tapavas a cabeça para recompores a sombra conhecida da ácida solidão dos corredores percorrendo-te até ao fim do mundo. até ao fim das chuvas manchando de aragem os pinheiros. só o vento te esticava as pálpebras e os braços nessa vigília das chuvas. no entanto caminhavas.
Para que chuvas de ir rumam os teus passos?
vejo-te no meu pensamento quando desvio os olhos do vidro. nele esgueiras-te e desandas e nada perguntas do que de mim se extingue na superfície do espelho. no meu pensamento há um pinheiro pesando-me de verdes desabrigos e chamo ir a esta janela virada para ti enquanto os meus olhos tracejam o modo de delimitar esta chuva. este rastilho de água a continuar a negra sede
do homo erectus?

luís filipe pereira






segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Já nos escaparates, Revista Umbigo/setembro, com ensaio meu sobre livro de Rui Nunes: eis um excerto breve

Título: Ofício de Vésperas de Rui Nunes ou nas Antevésperas de Deus (por Luís Filipe Pereira)
"O que mais surpreende neste Ofício de Vésperas é o carácter prévio da visão relativamente à palavra e ao seu trabalho de nomeação. Trata-se de uma visão que frequenta, sem concessões nem paliativos, uma "paisagem convulsiva" (Relógio D'Água, 2007, p.42), que é a que sobra dos lugares de abandono abertos pelo não-lugar de Deus. Uma visão que acompanha a voz do escritor, mesmo se essa voz se transforma num irreparável grito inarticulado: "do mundo dos lábios, a separação do olhar de Deus" (p.11). É então desta separação, a negro no original, que resulta, de forma diferida, o olhar de Rui Nunes como um olhar, irremediavelmente, separado. A travessia das múltiplas vésperas - da infância, do luto, da neve, do fuzilamento, etc. - que este livro propõe é comparável a uma funda experiência de constantes estilhaçamentos, pois o sujeito enunciador como que grita desde um sítio onde se perde - e, com ele, nós leitores - até um sítio de não se encontrar."..................................................servem as reticências para convocar-vos, em primeiro lugar, à leitura do excelente livro de Rui Nunes, em segundo, à aquisição da Umbigo e à umbilical predação das suas in-tensas matérias, incluindo o prolongamento deste meu Ensaio, hic et nunc , apresentado para os generosos intertextuantes deste blog nestas breves pinceladas, bem como da belíssima ilustração de Mónica Santos (a quem agradeço) que, acompanhando o ritmo do texto, é um eco visual dos diversos estilhaços coligidos no Ensaio.
luís filipe pereira

domingo, 14 de setembro de 2008

PARABÉNS ANTÓNIO RAMOS ROSA (felicito também os demais distinguidos de inexcedíveis méritos)


12-09-2008
Eduardo Lourenço, Óscar Lopes, António Ramos Rosa e Manuel Alegre distinguidos
A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) anunciou hoje a atribuição da sua Medalha de Honra aos ensaístas Eduardo Lourenço e Óscar Lopes, ao poeta António Ramos Rosa, além de outras personalidades da vida portuguesa, como Paula Rego, Júlio Pomar, António Manuel Baptista e Mário Soares.
A SPA considerou que estes autores merecem a distinção "tendo em conta a inquestionável relevância e representatividade da sua obra" e indicou que a data da entrega será anunciada em breve.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Ilustração de Mónica Cunha (que generosamente a artista me dedica) & um poema em dia-logos


Para a Mónica Cunha,

Felinos fluviais os teus olhos estuam
nas silenciosas esquinas que
refazem a carícia do rosto
quando intacta é ainda a pele
dos caminhos

dos pólenes
por inventar.

Tens o caminho nos teus olhos
e um verde rio farejado
pelo pé em meditativo salto
sobre o poço aromático
em precária levitação.

Aos teus olhos nenhuma venda os detém
porque rasgam o desconhecido
e nenhum enigma mais extenuado que um nome
pode travar os seus verdes passos
esgueirando-se da moldura ao encontro
das fluidas margens da frescura:
eis um passo a anunciar um passo
rente aos bálsamos dos caudais
de um cego chão

iminente
prometido.

Oscila o horizonte a cada passo teu
levitando nas antevésperas da locomoção.
Sempre um pouco mais.
Porque os ombros do chão
já os trazes no desvão desacomodado dos olhos.

Avanças o pé onde uma frágil flor tatuada
está destinada a eclodir num sopro de estames
mal sintam os teus olhos antecipando sulcos
abrigos

na estropiada venda que espia
o claro cheiro de um chão.
Porque outros trilhos duráveis
como pássaros tenazes
alternadamente desvendam
os dois insignes luzeiros das íris
instigando o pé a deslizar nas perfumadas
bermas doutros caminhos.

luís filipe Pereira

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Foto gentilmente oferecida pela escritora brasileira Paula Cajaty: folhas sobre o Rio de Janeiro



para Paula Cajaty

uma inscrição a sangue seco

na cinza do céu do Rio de Janeiro.

como se fosse um lamento de seiva sequiosa

de versos de verão.

dulcíssimas folhas esperguiçando-se

como refulgentes relógios de sol

escrevendo os trópicos aéreos

em que nasce a tremenda nostalgia.

folhas, feridas do outono, de almíscar e de amendoeira

em flor adiada.

erguem arcos de sol e salmos

entre os brancos baldios dos braços

na sua fecunda sede da flor.

são cálidas caligrafias como candeias solares

do intacto iodo e do sul infinito.

folhas, litorais do levante, de crescentes abismos

a meio do vento no meio-dia do céu.

luís filipe pereira

quarta-feira, 30 de julho de 2008

ANA HATERLY, série 1999: O Pavão Negro & poema da poeta-pintora & UMA GLOSA (minha) d'O Pavão Negro

"O pavão negro da escrita
abre um leque de opções
exibe o luxo
do seu traje-cárcere
Babel silente
no vazio da página
prende o tumulto da voz
fixa o assalto da mão
Última instância rebelde
é jogo
luta
luto
grito calado"
Ana Hatherly,O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003, 19
_______________________________________________________________
O pavão traça-se______________
escurece o inumerável grito no obscuro esgar de cada grafia
crescem nas líquidas caudas manchas melodiosas
como se fossem fatias do ensombrado canto do sol
a mão acompanha a mancha de tinta musical
que o tempo virá esclarecer nas elegias que na tela esvoaçam
e fazem da página da alma uma discordante demonstração
do sismo
do susto
do silêncio
dos agudos leques mastigando a mão até à língua misteriosa dos olhos
o pavão traça-se____________________
é uma imagem que se abre sobrevoando no grito a garganta inclinada
para o mágico pavão num instante de negro
para a mancha a sabotar o poema porque prévia ao signo
o pavão traça-se__________________
e no bando pousado na boca dos negros nomes sacode-se
a solitude da pele sobre o papel do pavão sobre a pele
dos espaçamentos
das entranhas
o pavão traça-se_________________________
transviado engole na mão as asas do espaço sobre a escrita-tinta.
luís filipe pereira
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Ana Haterly/Pavão Negro (1999)